A Sociedade Alternativa


OS “MALUCO BELEZA” – A sociedade de Raul Seixas e Paulo Coelho.
A sociedade proposta por Raul Seixas e Paulo Coelho nunca existiu de fato, mas, de fato, nunca deixou de existir.
Texto: Melanie Retz
Ilustração: Junior Lopes
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Tudo começou quando o cantor Raul Seixas, no inicio da década de 1970 leu um artigo muito maluco de Paulo Coelho sobre extraterrestres em uma revista e resolveu procurá-lo. Estava dada a largada para uma grande amizade que se tornou também parceria profissional, que se transformou em música, que virou manifesto ideológico e que, por fim, deu asas à Sociedade Alternativa. Porém, como definir essa irmandade que nunca foi efetivamente uma sociedade, mas que, ao mesmo tempo, existe até hoje?

Maníacos por sociedade?
“Faça o que tu queres pois é tudo da lei.” – Trecho da musica Sociedade Alternativa, de Raul Seixas e Paulo Coelho, inspirado em frase de Aleister Crowley

É, talvez esse título se encaixe bem: Paulo Coelho já havia participado de várias sociedades secretas místicas e ocultistas e Raul Seixas também sempre foi chegado no assunto: “O Raul sempre foi dado a sociedades. Desde garoto, ele tinha a “Sociedade dos Fumantes de Cigarro”, a “Sociedade dos Curtidores de Rock and Roll”, e isso foi crescendo com ele. Em 1971, quando já estava na CBS (que hoje é a gravadora Sony Music), ele criou a “Sociedade da Grâ-Ordem Kavernista”, que propunha uma retomada de valores que ficaram nas cavernas… Enfim, Raul sempre carregou essa coisa de sociedade e, quando conheceu Paulo Coelho, ele encontrou um outro maluco, com umas idéias mais loucas ainda. Era a metade que faltava para dar forma e estabelecer os preceitos do que seria a “Sociedade Alternativa”, conta Sylvio Passos, criador do fã clube Raul Rock Club. Ele foi amigo pessoal dos dois e é hoje um dos mais ativos membros da Sociedade alternativa. Tudo bem, eles já tinham uma queda por sociedades secretas, mas maníacos por elas talvez não seja a questão, mesmo porque, mais relevante que a elaboração da sociedade em si, na opinião deles, seria a criação de uma alternativa. Então, por que não…

Alternativos?
Combina bem com eles, é até uma boa denominação. Mas também não é só isso: A principal bandeira da sociedade deles é mais que uma simples alternativa. É a opção de ser livre para ser quem você é. “A base primordial da Sociedade Alternativa é a idéia de liberdade, mas não liberdade somente no sentido de não estar numa gaiola, é uma coisa muito mais ampla. Independentemente do setor em que você está, seja gerente de banco ou cantor de rock, o importante é você ter consciência de que é livre para fazer aquilo que gosta. A idéia é simples, é básica”, explica Passos. E, se estamos falando em liberdade, que tal…

Libertinos?
Não seria de todo errado defini-los assim. Eles realmente eram desregrados, levavam uma vida louca, quase sem limites, talvez lascivos, mas é certo que o termo também é insuficiente: “Eles propunham a liberdade. Mas não a libertinagem. Os hippies até tinham idéias parecidas com as da Sociedade Alternativa, mas confundiram liberdade com libertinagem. Já Raul pregava a liberdade – ele tinha uma visão anárquica da sociedade – mas sabia que a liberdade total era impossível e tinha claro em mente que o direito dele terminava quando começava o do outro”, diz. E se falamos em…

Thelemitas?
Siiiim. Tá esquentando! Mas o que significa isso? Eles eram seguidores da Lei de Thelema (lei da vontade) criada pelo ocultista inglês Aleister Crowley (1875 – 1947), que se autodenominava a “Besta 666”. Para ele, pecado seria qualquer atitude que restringisse os impulsos naturais e limitasse a vontade humana. Tal idéia realmente virou lei para Paulo e Raul, e ganhou evidencia na música dos compositores. Dois exemplos claros são as letras das músicas “Sociedade Alternativa” (um hino a sociedade) e “A lei”. “A Lei de Thelema é puro Crowley. Thelema é uma palavra grega que significa vontade, portanto, a lei da vontade. Não aquela vontade de jogar uma pedra na casa do vizinho ou de sair fazendo sexo com deus e o mundo. Não é isso. É uma vontade natural, espontânea , verdadeira. Um pé de feijão nasce ou um pelo no braço cresce por causa da lei da vontade. É ela que faz as coisas acontecerem”, explica Passos. E por falar em musica, talvez…

Músico – manifestantes?
Com certeza eram. As canções que compunham juntos (e não foram poucas), os discos e o palco eram os meios de Paulo Coelho e Raul Seixas difundirem suas idéias e arrebanharem multidões de seguidores para a Sociedade. Pode até ser que músico-manifestantes seja uma boa definição, pois foi justamente por serem compositores e utilizarem suas letras como forma de expressão e manifesto que a Sociedade Alternativa se perpetuou. Mas se pensarmos bem, as canções eram um meio, não um fim. “No palco havia toda uma situação teatral. Além das músicas, que eram a expressão viva do pensamento da Sociedade, Raul lia manifestos com trechos de Crowley e Proudhon. Com um discurso afiadíssimo, cheio de metáforas e um carisma absurdo, deixava o público hipnotizado”, conta Passos. Talvez, então, sejam…

Raulseixistas?
O público hipnotizado…Um bando de “raulseixistas” dizendo “amém” a tudo que o ídolo dizia… Êpa, mas e a liberdade de ser quem você é? Pois é, aconteceu exatamente o que Raul e Paulo não queriam. O próprio Raul acabou desgostando daquilo, porque a proposta dele era uma e a reação do público foi outra. Começaram a vê-lo como um guru, um deus, um salvador da pátria”, relata Passos. Raul se dizia “raulseixista”; o público foi atrás. “Eles não entenderam que, pela filosofia de Raul, só ele poderia ser “raulseixista” e cada um deveria buscar sua própria filosofia de vida. Seria praticamente uma sociedade anarcoindividualista. Eu acredito que, para quem compreende de fato, a coisa no todo remete a isso: você ser a sua própria religião, seu próprio país, você ser o centro de tudo, sem prejudicar os outros nem querer ser melhor do que ninguém”, diz o criador do fã-clube. O próprio Raul dizia: abaixo o “raulseixixmo”! Tá, “raulseixixmo” realmente não é um bom termo. E…

Abridores de cabeças?
Acho que essa definição até rolou, não? Eles realmente mexeram com a cabeça das pessoas com suas letras incrivelmente inusitadas. E ela ainda tem tudo a ver com o símbolo da Sociedade, que é uma chave. Na verdade é uma letra do alfabeto egípcio, também conhecida como Cruz Ansata (uma circunferência com um “T” embaixo), que ganhou degraus na parte inferior e ficou parecendo uma chave. “A Cruz Ansata significa vida eterna. Como ela foi modificada, virou uma chave. É uma chave que abre cabeças, que abre percepção, que abre todas as portas. É uma maneira simbólica de falar do espírito. A proposta é você se deparar consigo mesmo”, explica. Legal, mas se a Sociedade não se concretizou de fato, poderíamos dizer…

Utopistas?
Há muitos argumentos favoráveis a essa definição. “A Sociedade Alternativa em si é um conceito, não é uma coisa física. Era uma forma de pensamento, uma idéia. No inicio, o Raul e o Paulo até imaginavam colocá-la em prática, faziam relatórios, houve a divulgação da aquisição de um terreno na divisa do Rio de Janeiro com Minas Gerais que serviria para construir a comunidade. Mas a Sociedade Alternativa, enquanto prática, é utópica: não existe a menor condição de virar uma coisa concreta. Na minha concepção, quando o homem começou a se organizar em sociedade e começaram a existir leis, ordens e regras, a partir desse momento, inconscientemente, os indivíduos que não estavam satisfeitos com o que era imposto, criaram uma alternativa, uma condição diferente. Portanto a Sociedade Alternativa nunca começou e nunca terminou: ela sempre existiu. É uma forma de não aceitar as regras vindas de outros que não combinem com suas idéias”, esclarece Sylvio Passos. E teria como concretizar? Pouco provável. “Vamos supor que a Sociedade Alternativa fosse constituída, que encontrássemos um terreno, que montássemos ali uma sociedade alternativa, como existem aos montes no mundo. Ela ia depor contra ela mesma, porque alguém dessa organização ia se virar contra as regras dela e ia começar tudo de novo. Daí a proposta de ela ser uma coisa conceitual. Só assim ela funciona. Na verdade, é só uma idéia que cada individuo absorve de maneira diferente”, evidencia Passos. Tudo bem, há utopia na idéia, mas também há ação e contestação concreta. Seriam então…

Contestadores?
Uma coisa é certa: eles tinham coragem. Em plena ditadura militar, faziam discursos abertos contra a repressão e a falta de liberdade de expressão e ação. “Num primeiro momento, estavam passando despercebidos, porque os militares estavam de olho nos ‘chicos’ (Buarque) da vida. O Raul era visto por esse pessoal como um roqueiro maluquinho inofensivo. Ele e Paulo Coelho estavam com vinte e poucos anos de idade, muito sucesso e dinheiro, e essa idéia era completamente diferente na época. Por dois anos eles conseguiram mandar bala nos manifestos. Até que os militares prestaram atenção e ai a coisa ficou complicada. Eles receberam visitas desagradáveis de alguns agentes federais, foram presos – embora só haja documentação da prisão de Paulo, a de Raul sumiu – e tiveram que dar uma parada nos palcos e ir para os Estados Unidos”, relata. E a Sociedade perdeu força, perdeu gás e, depois, perdeu Raul… Passou por um momento de estagnação até que, na década de 1980, Sylvio Passos, Paulo Coelho e Toninho Buda tentaram reavivar a Sociedade Alternativa. “Começamos um trabalho, mas já não conseguimos a mesma força, o momento era outro, a linguagem e a cabeça das pessoas eram outras. Mesmo assim, continuo divulgando as idéias da Sociedade, porque acredito piamente nela”, diz. Bom, só ficou faltando a mais batida idéia que se tem sobre eles…

Malucos?
Muitos preferem essa definição. Acham que a Sociedade Alternativa era uma desculpa para o abuso do álcool, drogas, sexo e rock and roll. E não dá para lhes tirar totalmente a razão. No entanto, também não se pode negar que a idéia de uma Sociedade que incentivava a autenticidade é interessante e muito bonita. Está ai… Talvez “autenticistas” seja a melhor definição para os “Maluco Beleza” – os incentivadores da autenticidade. Ou talvez, melhor mesmo, seja deixá-los sem rótulos. Assim, cada um que aderir tem liberdade para decidir o que é. Por fim, fica claro que o fundamento da Sociedade Alternativa não pode deixar de existir e que maluco mesmo é quem não tem coragem de ser o que é.

Liberdade à moda Crowley
“Todo homem tem direito de pensar o que quiser. Todo homem tem direito de amar quem quiser. Todo homem tem direito de viver como quiser. Todo homem tem direito de morrer quando quiser. Direito de viver, viajar sem passaporte, direito de pensar, de dizer, de escrever, direito de viver pela sua própria lei, direito de pensar e de escrever, direito de amar, como e com quem ele quiser.” – Trecho da musica A LEI, de Raul Seixas, inspirada no texto Liber Oz, de Aleister Crowley.

Fonte: Revista HISTÓRIA EM FOCO – SOCIEDADES SECRETAS – Setembro 2009

TONINHO BUDA – Sociedade Alternativa

Manifesto N°11 da Sociedade Alternativa ©1985

Prefácio:
Nós saudamos os artistas brasileiros que tiveram o silêncio do resto do mundo quando seus trabalhos e seus corpos foram censurados, mutilados, desaparecidos.

Manifesto

1 – O espaço é livre. Todos tem de ocupar seu espaço.

2 – O tempo é livre. Todos tem que viver em seu tempo e fazer jus as promessas, esperanças e armadilhas de seu tempo.

3 – A semente é livre. Todos tem o direito de semear suas idéias sem qualquer coerção da INTELEGENZIA ou da BURRICIA.

4 – A colheita é livre. Todos tem o direito de colher e se alimentar do trigo da criação.

5 – Não existe mais a classe dos artistas. Todos nós somos capazes de plantar e de colher. Todos nós vamos mostrar ao mundo e ao MUNDO a nossa capacidade de criação.

6 – “Todos nós” somos escritores, donas de casa, patrões e empregados, clandestinos e caretas, sábios e loucos.

7 – E o grande milagre não será mais ser capaz de andar nas nuvens ou caminhar sobre as águas. O grande milagre será o fato de que todo o dia, de manhã até a noite, seremos capazes de caminhar sobre a Terra.

Saudação final do 11º manifesto

Sucesso a quem ler, guardar e difundir este manifesto. Porque nós somos capazes. Todos nós, todos nós somos capazes.

Raul Seixas, Paulo Coelho, Sylvio Passos, Christina Oiticica, Toninho Buda, Ed Cavalcanti ©1985

Bruce Springsteen Sociedade Alternativa Rock in Rio 2013

Bruce Springsteen – Sociedade Alternativa (São Paulo – Espaço das Américas, 19/09/2013)

Detonautas – Sociedade Alternativa (Rock in Rio 2013 – Palco Sunset, 14/09/2013)

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obrigado_raul