O mais maldito dos malditos

Publicado: 15 de março de 2006 em Não categorizado

O mais maldito dos malditos


Silvio Essinger

Divulgação
15.03.2006 |  Corria o ano de 1978 e o cantor e compositor capixaba Sérgio Sampaio
fazia no Teatro Opinião, no Rio de Janeiro, o show “Enquanto Seu Disco Não Vem”
– uma referência ao fato de que havia dois anos não gravava e, ao mesmo tempo, a
profecia de que ainda se passariam outros quatro até que voltasse com um LP. Ele
cantava a música “Pobre Meu Pai” quando um gato preto, que há algum tempo fizera
do teatro a sua moradia, sentou-se calmamente na sua frente e só levantou quando
a música acabou. A coincidência (ou não) é um dos vários episódios folclóricos
que pontuaram a vida de infortúnios e bad trips do cantor da
marcha-rancho “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”, um dos maiores sucessos da
MPB do ano de 1972.

Integrante de um grupo de artistas que, à revelia
(principalmente) deles próprios, acabariam sendo rotulados de “malditos” ao
longo dos anos 70 (Jards Macalé, Jorge Mautner, Luiz Melodia, Tom Zé e Walter
Franco incluídos), Sampaio não teve tempo de esperar a redenção, por mais
secreta que fosse. O disco que planejava lançar em 1994, depois de 12 anos sem
gravar, esbarrou num problema: a morte do artista, no dia 15 de maio, após uma
crise de pancreatite, previsível diante das angústias e abusos alcoólicos
cometidos ao longo de 47 anos de vida. Foram necessários mais 12 anos para que
as derradeiras (e incompletas) gravações chegassem ao CD “Cruel”, empreitada de
um aplicado discípulo, o cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro, que com
esse lançamento inaugura seu selo independente Saravá Discos.

Filho de um
fabricante de tamancos (que no entanto se esmerava mais como maestro de banda) e
de uma professora primária, Sérgio Sampaio nasceu em Cachoeiro de Itapemirim.
Cidade que entraria para a história da música brasileira por causa de um primo
do cantor, Raul Sampaio Crocco (que compôs “Meu Pequeno Cachoeiro”, sucesso na
era de ouro do rádio), e principalmente, claro, de Roberto Carlos (que,
inclusive, regravou o “Cachoeiro”). Sérgio se beneficiou bastante da discoteca
do primo, onde podia complementar a sua dieta de Orlando Silva e Sílvio Caldas
que crescera ouvindo no rádio. Ao mesmo tempo, acompanhava o crescimento
artístico de Roberto a uma certa distância – inicialmente, a sua pretensão não
era a de ser cantor, mas locutor de rádio, e assim poder viver toda a boemia que
Cachoeiro (e mais tarde o Rio de Janeiro) pudessem lhe
proporcionar.

Quando veio o sucesso com “Eu Quero Botar Meu Bloco na
Rua”, vieram também as comparações com o conterrâneo – Sampaio seria “o sucessor
de Roberto”, segundo uma revista popular. Não poderiam ser mais antagônicos os
dois personagens. “Nunca imaginei uma coisa dessas, porque o que Roberto canta é
totalmente diferente do que eu canto. Inclusive, acredito que os objetivos de
Roberto na canção sejam totalmente diferentes dos meus”, diria Sérgio em 1989.
No entanto, ele não deixou de alimentar o desejo de ter uma música gravada pelo
Rei, com quem poucas vezes cruzou, mas que mandara a ele um pedido de canção por
meio de um assessor, no calor do sucesso do “Bloco”. De uma conversa com Odair
José (o “cantor das empregadas”, maldito da MPB por diferentes razões, que
também sonhava em ser gravado por Roberto) veio a Sérgio a idéia de “Meu Pobre
Blues”, uma canção amarga, feita não para o astro gravar – mas para ele ouvir e
botar a mão na consciência. “E agora que esses detalhes/ já estão pequenos
demais /e até o nosso calhambeque não te reconhece mais/ eu escrevi um blues/
com cheiro de uns dez anos atrás/ que penso ouvir você cantar”, cantava ele,
reconhecendo a impossibilidade de compor para o Rei.

Mas se Roberto
Carlos era o antípoda, um futuro nome de sucesso da MPB seria a alma gêmea de
Sérgio Sampaio: Raul Seixas. Em 1971, época em que o capixaba vivia como
mendigo-hippie no Rio, em busca do sustento e de alguma chance como músico, ele
esbarrou com o roqueiro baiano, dois anos mais velho que ele, à época empregado
na CBS como produtor de artistas do núcleo comercial da gravadora: Jerry
Adriani, Renato & Seus Blue Caps… “Eu fui à gravadora apenas acompanhar no
violão um rapaz que ia fazer teste para cantor e compositor [Odibar, parceiro de
Paulo Diniz]”, contou Sérgio em entrevista de 1973. “Senti que Raulzito não
gostou da composição do cara. Realmente, era fraca. Mais do que depressa,
apresentei uns trabalhos meus. Ele gostou e eu fiquei.” Tornaram-se amigos
imediatamente. Promoviam insólitos concursos de magreza (que Sérgio vencia) e
influenciavam-se mutuamente, com Raul mostrando o rock a Sérgio e este tentando
lhe mostrar o samba (consta que deu ao amigo um disco de Paulinho da Viola que o
baiano tirou da vitrola logo no primeiro chiado da agulha). Sampaio seria o
cúmplice de Raul numa traquinagem perpetrada por ele enquanto o diretor da CBS
viajava: o disco “Sessão das 10”, de uma tal Sociedade da Grã-Ordem Kavernista,
composta pelos dois, a sambista paulistana Miriam Batucada e o baiano
desbundadíssimo (e assumidamente homossexual) Edivaldo dos Santos Araújo, o Edy
Star.

Esse disco, que a matriz da CBS mandou de volta ao Brasil com um
telegrama perguntando “what is this?”, acabou sendo a estréia de Sérgio Sampaio
em LP. Uma colagem anárquica, influenciada tanto pelo tropicalismo quanto por
Frank Zappa e os Mothers of Invention, trouxe o “Chorinho Inconseqüente”, “Todo
Mundo Está Feliz” e “Eu Não Quero Dizer Nada”, algumas das mais sarcásticas
músicas do compositor (ao menos, as que conseguiram passar pela Censura).
Compreensivelmente, o disco foi recolhido e tanto ele quanto Raul logo estariam
fora da gravadora. Sampaio tinha uma música nova, “Eu Quero É Botar Meu Bloco na
Rua”, um grito surdo contra o estado de coisas na ditadura, que inscrevera no
Festival Internacional da Canção de 1972, junto com “Let Me Sing, Let Me Sing” e
“Eu Sou Eu, Nicuri é o Diabo”, de Raul. “Fiz a canção num momento de angústia
bastante grande, eu sozinho comigo cantando, e sentia que ela tinha um poder.
Depois, mostrei para Raul e ele mesmo disse: ‘Pomba, é isso aí, dá pé, esse
negócio aí é legal.’”, disse Sérgio, que gradualmente a viu se transformar num
sucesso. O “Bloco” abriu as portas da Philips para a gravação de um compacto
(que vendeu mais de 500 mil cópias) e de um LP, produzido por Raul Seixas (que
já estava lá por causa do “Let Me Sing”), a ser batizado com o título da música.
“A grande importância dessa canção é ter sido lançada numa época em que as
pessoas estavam muito amordaçadas e bastante medrosas de abrirem a boca para
falar qualquer coisa”, dizia o artista, que viu sua vida mudar de uma hora para
outra. De repente, virara um astro, com toda a tietagem, espaço absurdo de mídia
e dinheiro a que tinha direito.

Quanto ao LP, um dos mais surpreendentes
da MPB daquele 1973 (ano em que também estrearam no bolachão nomes como Raul,
Secos & Molhados, Luiz Melodia e Walter Franco), nada aconteceu. Mesmo com
músicas do quilate de “Filme de Terror”, “Cala a Boca, Zebedeu” (samba do
maestro Raul G. Sampaio, pai de Sérgio), “Pobre Meu Pai” (depois da homenagem,
uma crítica ao autoritarismo do progenitor), “Viajei de Trem” e “Raulzito
Seixas”, a adversidade da crítica (que o comparou a Caetano), a irritação com as
cobranças por um novo “Bloco”, o cansaço do artista com a fama e a simples falta
de vontade de promover o lançamento (o que foi agravado pelo fato de Sérgio
viver seu momento mais tresloucado, em noites viradas de pó e bebida) acabaram
por sabotar o trabalho. “Esse disco fez um estrago danado lá em casa. Ele tem
uma mágica, até hoje eu ouço e me emociono, ele me remete à infância, aquele
ambiente familiar, dos meus irmãos tocando ‘Cala a Boca, Zebedeu’, o ‘Bloco na
Rua’… É um daqueles discos da vida”, conta Zeca Baleiro, um dos poucos (mas
felizes) a quem o disco atingiu na época. Anos mais tarde, Sampaio deu sua
explicação para o fracasso: “O que pode ter existido, talvez, tenha sido a minha
proposta de vida, de não ser aquela pessoa que me deixasse levar,
profissionalmente falando, pela estrutura da máquina. Mas eu não fazia isso
conscientemente, era apenas uma postura de vida”.

Daí em diante, ele e
Raul Seixas seguiriam caminhos distintos, mas paralelos. O roqueiro viveria
alguns anos de estrondoso sucesso nacional (com “Ouro de Tolo”, “Mosca na Sopa”,
Metamorfose Ambulante”, “Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás”) e em seguida o
ostracismo, a morte (em 1989, pelos mesmos excessos de bebida, drogas e paixão
de Sérgio) e a posterior ressurreição, como uma lenda ainda maior do que era em
vida. Já o amigo… “Essa história de margem, acho que sempre vou correr por aí,
até o fim da minha vida”, dizia Sampaio. Inspirado pelo poeta suicida Torquato
Neto, ele compôs logo em seguida “Que Loucura”. Apesar do que se dizia, dado que
Sérgio jamais abdicara da boemia selvagem, transferida em meados dos anos 70
para o Baixo Leblon, ele se considerava absolutamente são. “Se um dia acontecer
de eu ser internado num hospício, uma coisa certa, bastante certa, é que é uma
tramóia, é uma armação”, disse.

Um confesso não-músico (“toco no violão
como quem toca o corpo de uma mulher sem saber as zonas erógenas”) que buscava
inspiração nas vidas alheias, mais que na sua (“As intrigas, as cafajestadas, as
manifestações de hombridade, de generosidade, carinho, gosto de tudo o que vem
do ser humano, do pior ao melhor, do mais gostoso ao mais tétrico…”), Sérgio
saiu da sala e foi para o porão: encontrou seu espaço nos centros culturais da
Zona Norte e Baixada Fluminense, onde seguiu fazendo shows enquanto as casas
nobres da MPB o desprezavam. Gravou, pela Continental, em 1976, o disco “Tem Que
Acontecer” (mais voltado para o samba, com clássicos como o “Que Loucura”,
“Velho Bandido” e a faixa-título) que também não aconteceu em sua época. Mas ele
foi adiante. Teve música gravada por Erasmo Carlos (“Feminino Coração de Deus”),
conheceu novos parceiros, como Sérgio Natureza (que o definiu como “um peixe
muito vivo, nadando contra a correnteza”) e a arquiteta Angela Breitschaft, mãe
de seu único filho, João (nascido em 1983) e grande batalhadora para que ele
lançasse seu último disco em vida, o independente “Sinceramente” (1982), que
conseguiu vender poucas de suas 4 mil cópias devido à falta de
divulgação.

Mesmo desanimado com sua situação e a da música popular
brasileira em geral (em 1989, dizia: “eu gosto muito de Lobão, de Cazuza… Mas
a música de hoje é muito mais para chatura do que pra interessante”), Sérgio
continuava compondo e chegou a gravar em Salvador, com voz e violão, algumas das
músicas para aquele que seria seu disco de 1994, a ser lançado pelo selo
paulista Baratos Afins, de Luz Calanca. A essa altura, Zeca Baleiro deixara de
ser o garoto fã e se tornara cantor e compositor – quatro anos depois, faria
bastante sucesso com a regravação de “Tem Que Acontecer”, lançada no
disco-tributo “Balaio do Sampaio”, organizado pelo parceiro (e grande amigo)
Sérgio Natureza. Zeca conhecera Sérgio em 1989 num show no Rio de Janeiro. “A
gente tomou umas cervejas e, na época, eu e mais quatro amigos estávamos
editando uma revista cultural lá no Maranhão que se chamaria ‘Umdegrau’”, conta.
“E a gente queria um entrevistado, um nome nacional. Fiz o convite e ele topou.
A gente mandou as perguntas e ele levou tanto tempo para responder que quando
ele mandou as respostas a revista já tinha saído (risos). No fim da fita
com a entrevista, ele gravou uma música, sem que a gente pedisse. Uma amostra do
que ele estava fazendo. É uma canção linda, uma espécie de samba-canção meio
Cartola, mas com uma letra moderna.”

Era “Maiúsculo”, música que encerra
“Cruel”, o disco que o maranhense acaba de lançar depois de recuperar
eletronicamente as gravações originais de Sérgio e vesti-las com um instrumental
contemporâneo, mas sóbrio. Os sambas “Roda Morta (Reflexões de um Executivo)”,
“Polícia Bandido Cachorro Dentista” e “Rosa Púrpura de Cubatão” (que João Bosco
tirara do ineditismo no “Balaio”) vieram da gravação de boa qualidade da Bahia.
Os registros de outras como “Pavio do Destino” (dolorosa reflexão sobre as vidas
dos meninos das favelas) e “Quem é do Amor”, por sua vez, vieram de uma fita
cassete, já que as matrizes haviam se perdido. Já a faixa-título (que o amigo
Luiz Melodia transformara em sucesso no disco “Acústico”, de 1999 – o primeiro
de sua carreira a vender mais de 100 mil cópias) teve voz e violão extraídos de
uma gravação caseira de qualidade ainda pior. Zeca optou por organizar as
músicas no disco de forma a que os registros de Sérgio mais precários – meio
como se ele fosse sumindo – ficassem para o final. Coube a “Maiúsculo”, cheia de
barulhos da rua e de portas batendo ao fundo, encerrar “Cruel”, com um pungente
efeito de despedida.

“Acho que se o Sérgio tivesse sobrevivido, hoje ele
estaria num lugar muito mais confortável, como aconteceu com o Tom Zé e com o
próprio [Jards] Macalé. Sem aquela ilusão do grande sucesso”, acredita Zeca
Baleiro. “Um lugar confortável, um lugar minimamente justo. Porque o Sérgio
amargou um ostracismo muito grande nos anos 80. O trabalho que ele fazia, apesar
de ter informações do rock e do pop, era muito out para aquela época.
Quando veio um tempo de maior tolerância e respeito, de uma coexistência
possível entre os gêneros, que foi a partir dos anos 90, seria o momento de ele
se estabelecer.” No entanto, Sérgio Sampaio era o primeiro a exprimir a
impressão, típica do poeta romântico, de que o seu sucesso poderia ser póstumo:
“O importante é fazer, é estar feito, estar registrado. O próprio Fernando
Pessoa, em vida, ninguém lia. E hoje Fernando Pessoa é o que nós sabemos”. Mas
Zeca sonhava com um pouco mais de generosidade do pavio curto do destino:
“Sérgio não parecia ter vocação para o sucesso, porque era um cara muito
temperamental, irascível. Mas talvez agora a idade trouxesse para ele uma
serenidade”.

 
  

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comentários
  1. nilton de souza moraes disse:

    sou primo de sergio sampaio,tel26340020

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  2. nilton de souza moraes disse:

    eu quero é botar meu bloco na rua,a biografia de sergio sampaio edições muiraquitã,rua jose clemente,73sl505-centro-niteroi,tel.26202788

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