Carta de J.R.R.Abrahão , 21 de Março de 2005

Publicado: 13 de junho de 2007 em Não categorizado

Carta de J.R.R.Abrahão , 21 de Março de
2005
 
Gostaria de dizer os motivos que me levam a não
participar de nenhum ato, show ou homenagem prestada à memória de Raulzito.
Permita retroceder no tempo alguns anos apenas.
 
Foi em meados da década de 80 que Paulo Coelho, que
era meu amigo faziam poucos anos, me apresentou ao Raulzito, a meu pedido. Eu já
tinha profunda admiração pela obra e pela mensagem deles e queria conhecer a
visão de Raul sobre isso, vez que a do Paulo eu já conhecia. Na época eu estava
profundamente envolvido com Magia Thelêmica, daí essa curiosidade. Foi oportuno
nosso contato, pois Raulzito estava com dificuldades em liberar algumas
composições no Departamento da Censura da Polícia Federal e eu tinha bons
contatos lá naquela época. Fui com Raulzito ao Gabinete do Superintendente em
São Paulo do Departamento de Polícia Federal e as portas lhe foram abertas. As
músicas foram liberadas. Na época, eu namorava com a Lilian Ramos (aquela do
Itamar, no Carnaval, a "sem calcinha"…) e houve um episódio desagradável na TV
que fez com que levasse a mesma na Polícia Federal junto conosco numa das
diversas vezes em que lá estivemos. O Raul decretou:
 
– "Velho, essa mulher é uma piranha, só quer o seu
dinheiro"…
 
Muito lúcido, né? Pura verdade – mas, naquele
momento, eu não via isso… ainda. Naquele período, Raul e Paulo não se falavam
mais (o Paulo telefonou para o Raul a meu pedido, fazia um bom tempo que não
mantinham contato). Fui eu quem reaproximou os dois – inclusive, o Paulo me
chamou "na moral", pois ficara aborrecido com minha atitude. Explico: Levei-o ao
encontro de alguém a quem não via fazia tempo e com quem convivera e conhecera
como a um irmão. E essa pessoa agora estava maltrapilha, desdentada, "jogada às
traças". Foi chocante, para usar as palavras do Paulo. Ainda assim, a
reaproximação teve conseqüências históricas – Paulo subiu ao palco num show no
Canecão (RJ) e junto de Raul cantou "Sociedade Alternativa".
 
Resguardando a intimidade e a memória de Raulzito,
só posso dizer que ele passou muitos maus momentos. A coisa estava tão preta que
na época que, casado com Lena, Raul dizia sempre "Lena odeia Raul Seixas".
Chegou a me pedir, num momento de desespero:
 
– "Bicho, Você é Bruxo, tira a Lena da minha
vida!"
 
Poucos amigos estiveram presentes nos seus mais
negros momentos, e muito poucos tão próximos dele quanto o querido Sylvio Passos
e eu. Não fosse a generosidade de Raulzito, eu jamais teria me tornado um
compositor. Tal é o meu constrangimento com as circunstâncias de seu fim que não
tive coragem de levar adiante o registro da música "Angel", de nossa autoria
(Raul e eu), com letra minha (em inglês) e música dele. Permanece
inédita.
 
Um fato extremamente relevante, perto do fim de sua
vida, foi a aproximação desinteressada de Marcelo Nova, na época no auge de sua
carreira, propondo a Raul a participação em seus shows (sim, shows do Marcelo
Nova onde ele repartiria o seu cachê com o Raul) e até mesmo a gravação de um
disco (é, na época era disco… estamos velhos…). Timidamente no início,
cantando uma ou duas músicas apenas, Raul começou a ressurgir das cinzas tal
qual uma Fênix. Com a idéia de gravar um LP (Long Play), Marcelo, então
contratado pela Warner, procurou o Presidente daquela gravadora, o canalha do
André Midani, um dos fundadores daquele instituto "Sou da Paz", que está
vendendo o Brasil aos gringos (tenho provas). André Midani ODIAVA o Raul e
retrucou ao Marcelo:
 
– "Se Você acha tão bom, por que não divide o disco
que está para gravar conosco por força de contrato com seu amigo?"
 
Marcelo, que é um cabra firme, "sem anestesia",
topou. O disco é o "Panela do Diabo", onde Raulzito e Marcelo me prestaram uma
homenagem ao dedicar a música "Carpinteiro do Universo" à mim. Raulzito morreu
em 21 de agôsto de 1989 – o disco "saiu" dois dias depois. Não pude agradecer em
pessoa.
 
Anos se passaram e eu pude render minha homenagem a
ele, à sua memória, dedicando meu livro mais "doído" de fazer, "O Quarto
Segredo". Não é auto-biográfico.
 
Dona Maria Eugênia, mãe de Raulzito (já falecida),
fez o prefácio. Ela havia se tornado uma grande amiga. Os anos se passaram e eu
sempre me mantive em silêncio. Volta e meia aparece algum imbecil inconseqüênte
afirmando que Raulzito foi preso e torturado no DOPS ou no DOI-CODI…
Mentira!!! Como, nos "anos de chumbo", estive ligado à "direita", tenho ainda um
considerável trânsito junto dos que comandavam os chamados "porões da ditadura".
A cada vez que isso acontece, eu corro e desminto. Na primeira vez, consultei
por e-mail o amigo de longa data Coronel do Exército Carlos Alberto Brilhante
USTRA, Ex-Comandante da OBAN/DOI-CODI de São paulo entre 1969 e 1974. O mesmo me
afirmou categóricamente que não há nenhum conhecimento de prisão ou maus-tratos
ao Raul Santos Seixas ou a seu parceiro Paulo Coelho de Souza. Foram sim DETIDOS
no DOPS por ALGUMAS HORAS, mas não sofreram nenhum arranhão. O exílio nos EUA
foi VOLUNTÁRIO. Mantive essa correspondência sempre com cópia para o Sylvio
Passos. O Cel. USTRA é o autor do livro "Rompendo o Silêncio", onde conta TUDO
sobre aquele período (1969-1974) e inclusive rebate as declarações mentirosas da
atriz Beth Mendes de que teria sido torturada por ele. Essa obra pode ser obtita
para download gratuito em meu site www.alexandriavirtual.com.br e
também em www.ebooksbrasil.com ou www.reservaer.com.br.
 
Quando Raul morreu, Dalva me telefonou, naquela
segunda-feira de manhã, e me chamou. Eu liguei pro Marcelo e pedi a ele que
chamasse o Albertino, então empresário de ambos. Fui o primeiro a chegar lá,
acompanhado de nosso médico então, Dr. Luciano Stancka e Silva, que constatou a
morte e deu o atestado de óbito. Após alguns instantes, pedí um tempo e me
tranquei no quarto com o cadáver do meu amigo Raulzito e eu lhe dei a
Extrema-Unção, no Rito do Cáos.
 
Por causa de meu relacionamento no Governo,
consegui arrumar um carro do Corpo de Bombeiros para levar o corpo e o velório
no Anhembi. Mas eu não fui. O que fiz pelo Raulzito, foi tudo de coração. E fiz
em vida. Após sua morte, inumeros artistas que nunca deram um dedo (quanto mais
uma mão) para ele, passaram a prestar homenagens, gravar discos, etc., etc. Quem
esteve com ele, firme, foram poucos, muito, muito poucos. Sylvio Passos, Marcelo
Nova, Dalva (sua empregada e muito amiga , uma pessoa maravilhosa), e a Kika,
com quem Raul pretendia reatar e voltar a viver no Rio de Janeiro. Não deu
tempo, mas sou testemunha disso, é a verdade. Nunca fui a um show de Raulzito –
minha ligação era com o ser humano, o irmão que meus pais não me deram, o meu
melhor amigo. Como disse e repito, o que fiz pelo meu amigo foi EM VIDA. Os
outros, que não o fizeram, embora pudessem, talvez se sintam reconfortados em
participar de homenagens póstumas – eu não, Estou em paz com minha consciência e
não quero estragar a festa de ninguém pois, se encontrar com esses maus amigos,
terei de falar a verdade olho no olho. O Sylvio sabe muito bem quem são esses
"urubús" que, mal o corpo do Raul descia a sepultura, queriam comer a carniça
das costelas dele…
 
Bem, era isso que queria dizer.
 
 
 
Receba um abraço afetuoso do
J.R.R.Abrahão.
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comentários
  1. Parabens …. Raul sempre Raul, esteja onde estiver …

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