Primeiro disco de Raul Seixas completa quatro décadas

Publicado: 9 de agosto de 2007 em Não categorizado

Primeiro
disco de Raul Seixas completa quatro décadas

Salvador (Bahia), 02/07/2007 – Quase 20 anos depois de sua morte,
em 21 de agosto de 1989, Raul Seixas continua vendendo dezenas de milhares de
cópias dos seus 17 álbuns. Mas o início da carreira do Maluco Beleza, que, se
estivesse vivo, teria completado 62 anos na semana passada, não foi fácil.

Em 1967, sua estréia no mundo fonográfico com o disco "Raulzito e Os
Panteras" foi um fracasso. "O Raul dizia que a EMI-Odeon gravou o disco pela
obrigação de ter uma cota de artistas brasileiros em catálogo. A gravadora só se
interessava mesmo em vender os Beatles no Brasil e não fez o menor esforço pelo
LP", diz Sylvio Passos, fundador e presidente do fã-clube oficial Raul Rock
Club.

Foi tão mal que a maioria dos fãs sequer sabia da existência do
álbum, que completa 40 anos. "Todos achavam que a carreira de Raul tinha
começado com ‘Krig-Há Bandolo’, em 1973".

Passados 40 anos, quem conta a
epopéia daqueles dias são "Os Panteras" – Carlos Eládio, Mariano Lanat e Antônio
Carlos Castro, o Carleba. Eles ainda moram em Salvador, mas não trabalham mais
com música.

Lembram que decidiram tentar a sorte no "Sul Maravilha", em
junho de 67. Os quatro embarcaram em um ônibus para o Rio de Janeiro e mandaram
os instrumentos por avião com o frete a pagar – é claro que, quando chegaram,
não tinham dinheiro para retirá-los.

"Se não fosse Chico Anysio, nós nem
teríamos desembarcado nossos instrumentos no Aeroporto Santos Dumont", recorda
Eládio, guitarrista. O adiantamento do humorista para pegar os instrumentos foi
o primeiro cachê que a banda recebeu.

Raulzito e Os Panteras foram
procurar aquele que então dava as cartas na cena da Jovem Guarda, no Rio,
naquela época, Carlos Imperial. Ele era o "brasa" do assunto. Segundo o
baterista Carleba, depois das apresentações, o quarteto baiano começou a tocar
para Imperial. Tocou a primeira. Nenhuma reação. Veio a segunda e, antes de
terminarem, Imperial cortou: "Pára, pára!!! O conselho que dou a vocês é saírem
daqui e voltarem para a Bahia. Quanto a você — disse, dirigindo-se a Raul —
Raulzito é lá nome de cantor de rock? Tá mais para cantor de música latina".

Segundo Carleba, Raul foi quem mais sentiu o impacto das palavras de
Imperial. "Ele ficou abalado, não queria tentar mais nada, pensava em retornar a
Salvador, ficava remoendo o que ele tinha falado, e a gente ficava reanimando
Raul", recorda.

Depois do contato fracassado, Raulzito e Os Panteras
foram tentar a sorte na gravadora CBS. Estavam no corredor, aguardando o teste,
quando Roberto Carlos passou por eles. "Você sabe quem somos?". Roberto
respondeu: "Claro, são Raulzito e Os Panteras, lá da Bahia".

O
reconhecimento do Rei encheu a banda de moral. O problema foi que os produtores
da gravadora confundiram o trabalho de Raulzito e Os Panteras com o de Renato e
Seus Blue Caps. "Eles acharam que nós também fazíamos a linha do iê, iê, iê
romântico. Nos recomendaram ir procurar a concorrente, EMI-Odeon", conta
Mariano. Depois de tentar gravar pela Odeon, sem sucesso, a banda voltou a
Salvador.

No verão de 1968, a praia de Arembepe, a 40 quilômetros de
Salvador, era a capital do movimento hippie no Hemisfério Sul. Por lá, passavam
grandes celebridades da contracultura. Entre elas, quem apareceu foi o casal
Mick Jagger e Marianne Faithfull. Carleba e Eládio estavam na Lavagem do Bonfim,
em janeiro, quando viram aquele casal se destacando no meio da multidão, não só
pela cor da pele, mas também pelos trajes hippies.

Eládio foi correndo
avisar a Raul que Mick Jagger estava em Salvador. Os dois rumaram para o Hotel
da Bahia, onde o casal estava hospedado. Quando entraram no saguão do hotel,
Raul viu um velho colega de colégio, Lalado, e lhe contou a novidade. Lalado não
só sabia da presença dos ilustres em Salvador, como também tornara-se amigo
deles.

Raul, então, pediu para ser apresentado aos popstars. Lalado
prontamente atendeu ao amigo e, logo, Mick Jagger estava no saguão do Hotel da
Bahia, conversando com Raul. Eládio, que presenciou o diálogo, sorri quando
lembra que Raul se apresentou em inglês perfeito dizendo que era colega de
gravadora de Jagger.

Eufórica, a banda voltou ao Rio de Janeiro para
gravar. Mas, a alegria de ver realizado o sonho em vinil se desmanchou com a
frustração de não ouvir o disco na rádio. Sem apoio da EMI-Odeon, os primeiros
rockers baianos passaram por agruras na Cidade Maravilhosa. Era o "tempo da
fome", como cantou Raul Seixas, em "Ouro de Tolo".

Carleba, baterista
dos Panteras, lembra a penitência que foi a divulgação do primeiro disco do
grupo. "Todos os dias, íamos aos programas de rádio com o disco debaixo do braço
para divulgá-lo. Na maioria das vezes, os radialistas nos humilhavam, deixando a
gente esperar a manhã toda. O programa acabava e, quando o apresentador passava
por nós no corredor, falava para voltar no dia seguinte."

Kika Seixas,
uma das esposas de Raul e responsável pela administração de sua obra, lembra
ainda que o cantor contou-lhe que numa dessas emissoras de rádio, um radialista
chegou a pegar o disco e tentar quebrá-lo para depois jogá-lo no lixo. Hoje,
material de colecionador, o disco custa caro. Reza a lenda que as poucas dezenas
de cópias que o hoje cult "Raulzito e Os Panteras" vendeu, na época do
lançamento, foram as que Dona Maria Eugênia, mãe de Raul, comprou para
presentear os familiares e amigos, em Salvador.

José Pacheco Maia Filho

www.gazetamercantil.com.br

 
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Veja o vídeo  "Meu Amigo Raul" acessando o link
abaixo.
http://www.youtube.com/watch?v=LXOXrKmrJW8
 
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