Edy Star proporciona momento histórico aos fãs de Raul Seixas.

Publicado: 4 de maio de 2009 em Não categorizado

 
Edy Star proporciona momento histórico aos fãs de Raul
Seixas

Artista recriou disco ‘Sociedade da
Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10’ na Virada
Cultural

Público que assistia ao show no palco Toca Raul da Virada Cultural

Werther Santana/AE

Foto:Público que assistia ao show no palco Toca Raul da Virada
Cultural

SÃO PAULO – Nem o mais otimista dos fãs poderia esperar
tanto. Após as apresentações de Os Panteras tocando o disco "Raulzito e os
Panteras" e Leno Azevedo, com o cultuado e fantasma "Vida e Obra de Johnny
McCartney", intercalado pela vigorosa presença dos rockabillys Gaspa e Os
Alquimistas, entrou ao palco Edy Star. Todo fã de Raul conhece a figura. Amigo
de Raul Seixas desde a juventude em Salvador, Edy é o único remanescente do
grupo que o então discreto produtor da CBS reuniu para perpetrar uma de suas
primeiras iconoclastias musicais: "Sociedade da Grã Ordem Kavernista Apresenta
Sessão das Dez", disco de 1971 que além de Raul ainda contava com Edy, Sérgio
Sampaio e Miriam Batucada.

Claro que ninguém cobraria nada
se dali não saísse muita coisa, já que no palco haveria 24 horas de Raul Seixas,
com diferentes artistas interpretando todos os seus discos, música por música.
Era jogo amistoso com a torcida a favor. Vindo especialmente da Espanha, onde
mora e trabalha há vários anos, a sua simples presença era motivo de
comemoração. Com sua personalidade festiva (Raul o chamava de Edy Bofélia) não
seria difícil deixar uma lembrança simpática e carinhosa.

Mas Edy não é homem de se
contentar com pouco nem de meios termos, como mostra a sua interessante
trajetória. E também como se podia ver antes da apresentação, quando circulava –
muitas vezes anonimamente – entre a multidão na Rua Casper Líbero. Durante o
show dos Panteras, chegou a retirar uma faixa que um fã barbudo de óculos
escuros e bandana pendurou em uma pequena árvore, impedindo que ele visse o show
dos conterrâneos enquanto conversava com um homem que destoava dos milhares ao
redor por estar de terno. Nessas situações não são poucos os que dariam um passo
ao lado para evitar confusão. Mas, mal o sujeito pendurou a faixa, Edy a
arrancou prontamente. O cara foi tirar satisfação e Edy encarou. De passagem,
não deu para captar o diálogo ríspido que se seguiu, mas de longe dava para ver
que a faixa não voltou a atrapalhá-lo.

Encerrado show de Leno, cabia
então a ele relembrar não só o homenageado do dia, mas também outros dois
talentosos falecidos que faziam parte daquilo que nos dias de hoje seria chamado
de coletivo: Sérgio Sampaio e Miriam Batucada. Apesar da complexidade musical do
disco de 1971, seu caráter anárquico permitiria que não houvesse tanta
preocupação com o suporte musical e seria fácil apostar apenas na reconhecida
capacidade cênica de Edy para segurar o show.

Como dito, era jogo ganho. Mas
em vez de se contentar com um empate ou vitória por um de diferença, o técnico
botou o time para golear. Responsável por reconstituir as 11 faixas inéditas em
shows (a Sociedade Kavernista nunca se apresentou, e somente o bolero Sessão das
Dez foi posteriormente aproveitado por Raul nos shows de sua fase inicial), o
guitarrista Caverna foi meticuloso na reprodução dos arranjos e garantiu, com
dupla de backing vocals, percussão e naipe de metais acompanhando a base
bateria-baixo-guitarra – uma retaguarda pra lá de sólida para a performance de
Edy.

Todas as faixas, começando pela
carnavalesca "Êta Vida" e terminando com "Dr. Paxeco", contavam com troca de
figurinos de Edy, lembrando as roupas dos quatro protagonistas na cada do disco:
a camisa da seleção brasileira de Sérgio, o hippie estilizado de Raul, a
super-mulher de Miriam e o ídolo da juventude de Edy. As debochadas vinhetas que
separam as faixas ao longo do disco ("…i rapaz hoje vi meu ídolo da
juventude…; …alô, é Jorginho Manero, é verdade que agora você é hippie?
Podes crê …" "Eu comprei uma televisão à prestação…"; "Tem um hippie em pé
no meu portão…") foram reproduzidas com fidelidade e participação de Sylvio
Passos, fã-símbolo de Raul Seixas.

Mesmo não tendo as letras na
ponta da língua (ao contrário do público) e por muitas vezes tendo que recorrer
à leitura de colas no chão do palco, Edy não deixou a peteca cair por um minuto.
Com a seqüência de bolero, xaxado, forró, marcha, samba, rumba e outros ritmos
que o quarteto cantou com suas diferentes vozes no disco original, Edy botou a
multidão majoritariamente associada ao rock (principalmente por causa da
vestimenta preta) para dançar e rebolar numa incomum celebração musical.

Curiosamente, a catarse se deu
em duas músicas que não eram de autoria de Raul Seixas nem por ele interpretadas
no disco, mas de Sérgio Sampaio, mostrando o quanto também era genial o cantor e
compositor capixaba que, como o homenageado da maratona, também se perdeu em
algum ponto de sua vida. Na primeira delas, "Todo Mundo Está Feliz", Edy colocou
todo mundo pra pular com o poderoso refrão que podia ser hit em qualquer trio
elétrico e que se alterna com a melodia quase melancólica criada por Sérgio.

Atrás do palco, os ponteiros do
relógio da Estação da Luz estavam próximos de se juntarem, quando Edy começou a
introdução de "Eu Não Quero Dizer Nada", criando um involuntário trocadilho
cênico com os versos "…já é quase meia noite, no relógio do edifício, onde
estou…". Talvez por ser originalmente cantada pelo próprio Edy no disco, a
canção teve uma interpretação arrepiante na noite de sábado, com os batuques que
acompanham o refrão "Você é tão legal" levando o público a um transe coletivo no
centro da cidade. A goleada estava garantida com dois gols magistrais.

Agora era só correr por abraço
com a anti-burocrata "Dr. Paxeco" e gozação de Edy com uma das lendas que cercam
o mítico álbum levando ao palco uma arpa egípcia improvisada em tampa de vaso
sanitário. Com tudo isso, nem tinha como a quase imperceptível vacilada de
sincronização para o encerramento performático ao som original da descarga de
privada do disco comprometer. E o bis, claro, não poderia ser mais apropriado:
"Todo mundo está Feliz Aqui na Terra, Todo mundo está Feliz Aqui na
Terra…"

IN: http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,edy-star-proporciona-momento-historico-aos-fas-de-raul-seixas,365307,0.htm


It’s only Raul Seixas. (But I like it.)
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