Raul Seixas – Revista Livraria Cultura

Publicado: 8 de agosto de 2009 em Não categorizado

A
autorreferência “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante” talvez seja o fio
condutor para a produção artística de Raul Seixas e esteja na raiz de qualquer
análise ou explicação para a perenidade da sua obra, que continua a influenciar
fãs e artistas, mesmo após 20 anos da morte do roqueiro.

Nascido em
Salvador (BA) no dia 28 de junho de 1945, ainda criança ele já dava sinais da
peculiaridade no seu modo de pensar e agir, o que mais tarde viria a forjar a
sua distinção como artista genial ou render-lhe o rótulo de maluco. Sua diversão
era passar horas devorando livros na vasta biblioteca do pai, a ponto de criar a
sua própria realidade, o seu mundo interior, “mais rico e intenso.”

Aos 9
anos, ele ganhou o primeiro violão e aprendeu sozinho a dedilhar algumas
músicas. A iniciação no rock and roll ocorreu a partir de contatos com colegas
do vizinho Consulado Americano na capital baiana, que lhe apresentaram Little
Richard, Chuck Berry e Elvis Presley, influência decisiva para o início da
carreira musical de Raul.

Nessa época, a música e os pensamentos
formulados pelo constante hábito da leitura dominavam o imaginário do futuro
artista, a ponto de ele renegar a escola, onde, dizia, “não aprendia nada do que
queria saber.”

Provocador, anos mais tarde, quando já despontava como
cantor, Raul decidiu dar uma pausa na carreira e se entregar aos estudos
tradicionais. Isso só para passar entre os primeiros numa faculdade de direito –
não para se dedicar a uma nova carreira, mas para provar às pessoas e à família
como era “fácil isso de estudar e passar em exames.”

“O Raul costumava
dizer que tinha um desejo muito grande de ser escritor. Mas, devido ao pouco
hábito de leitura do brasileiro, preferiu musicar a sua filosofia. E ele tinha o
enorme talento de sintetizar em quatro ou cinco estrofes ideias que outros
precisariam de 200 páginas para expressar”, afirma Sylvio Passos, amigo que
acompanhou intensamente a última década de vida do cantor e presidente do Raul
Rock Club – fã-clube oficial do artista, fundado em 1981.

Em 1962, Raul
criou o seu primeiro grupo musical, Os Relâmpagos do Rock, que dois anos mais
tarde, com nova formação, seria rebatizado como The Panters e, mais à frente,
como Raulzito e Os Panteras. Era dado início a uma carreira permeada por muitos
altos e baixos, incompreensão, intolerância e depressão, que foi abreviada por
graves problemas de saúde.

O início como cantor foi complicado. Depois de
figurar com a sua banda como coadjuvante em shows de astros da Jovem Guarda,
Raul conseguiu, ao lado dos parceiros, gravar o primeiro disco em 1968, o LP
Raulzito e Os Panteras. Foi um fracasso de público e crítica. Na análise do
cantor, isso ocorreu porque tocavam “coisas complicadas.”

Com o percalço,
o grupo se dissolveu, o que deixou Raul desiludido. Mas o convite de um amigo o
trouxe de volta ao mundo artístico em 1970, para trabalhar numa grande gravadora
como produtor de discos e compositor para grandes artistas da época. Em meio à
atuação nos bastidores, Raul voltou a brilhar com o projeto do disco Os 24
maiores sucessos da era do rock (esgotado), que ele produziu e para o qual
gravou algumas músicas, de forma anônima, em 1973.

Nessa mesma época, o
cantor deu o grande passo em sua carreira solo, com o lançamento do compacto
Ouro de tolo, com sua crítica à classe média brasileira. Na sequência, veio o
lançamento do primeiro LP, Krig-ha, bandolo! (esgotado), sucesso absoluto entre
a crítica.

Até hoje, esse disco é considerado um referencial na história
do rock brasileiro. Entrou para a seleção feita por Charles Gavin – baterista do
Titãs e ávido pesquisador da música brasileira – no seu livro 300 discos
importantes da música brasileira, lançado no ano passado. “Esse é o melhor disco
de Raul. É importante, porque representa um autêntico disco de rock brasileiro,
numa época em que se falava que não existia rock por aqui. Mesmo sendo o
primeiro disco de Raul, já surgiu bem maduro, com um texto muito avançado. Ele
era um visionário, e o seu trabalho permanece contemporâneo. Basta ver a música
Al Capone e o que acontece hoje no Senado”, alfineta Gavin.

Determinado a
mudar o mundo, o roqueiro fundou com o amigo Paulo Coelho a Sociedade
Alternativa, onde a lei deveria ser a total liberdade. Em meio à repressão da
ditadura militar, aquele ideal e a fina ironia das suas letras musicais eram um
atentado contra a ordem vigente, o que obrigou Raul a um breve exílio nos
Estados Unidos em 1974, quando começavam a estourar por aqui sucessos do seu
disco
Gita.

De volta ao Brasil no ano seguinte, ele entrou na fase
mais efervescente do processo criativo de sua carreira. Lançou os discos Novo
Aeon (esgotado),
Há 10 mil anos
atrás
, Raul Rock Seixas, O dia em que a Terra parou (esgotado), Mata
virgem (esgotado),
Por quem os sinos dobram,
Abre-te Sésamo, Raul Seixas, Metrô linha 743, Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum!, A pedra do Gênesis e
A panela do
diabo
(em conjunto com Marcelo Nova)
entre 1975 e 1989, por diferentes gravadoras.

Emplacou grandes sucessos,
marcados pela crítica sarcástica a temas como censura, ditadura militar e
capitalismo, entre outros. Conquistou discos de ouro, reconhecimento do público
e da crítica, lotou shows e festivais e até lançou o livro As aventuras de Raul
Seixas na cidade de Thor, em 1983.

PAI BELEZA
O “Maluco Beleza”
para seus fãs era, fora dos palcos, pai carinhoso, atencioso e divertido. Ele
foi casado cinco vezes (duas de papel passado) e teve três filhas. “Meu pai era
muito brincalhão. Bolava as histórias e personagens mais engraçados, como o
Capitão Garfo, que roubava minhas bonecas e as colocava na geladeira”, lembra
Viviane Seixas, que em maio último completou 28 anos. “No palco, ele era
perfeito e seguro. Na vida real e pessoal, como todos nós, teve suas fraquezas e
cometeu erros. O que mais admirava nele era sua coragem de cantar o que muitos
queriam dizer”, complementa.

Mas o problema com a bebida o fazia definhar
cada vez mais, padecendo de uma pancreatite aguda. Então com 44 anos, Raul foi
encontrado morto em seu apartamento na rua Frei Caneca, em São Paulo, no dia 21
de agosto de 1989, em decorrência de uma parada cardiorrespiratória. Seu corpo
foi velado no Palácio das Convenções do Anhembi, onde foi visitado por milhares
de fãs, e enterrado em sua terra natal.

Nas palavras de Charles Gavin,
“Raul Seixas influenciou todos os grandes pensadores e poetas da música
brasileira, roqueiros ou não, como Rita Lee, Arnaldo Baptista, Tom Zé, Caetano
[Veloso], Chico [Buarque] e [Gilberto] Gil.” “Não haveria rock nos anos 1980 se
não fosse por Raul e outros que ele influenciou. Ele é uma referência eterna,
como Bob Dylan ou Lou Reed.”

Expressão da sua própria vida e carreira, a
“metamorfose ambulante” de Raul também se encaixa perfeitamente no modo de vida
contemporâneo. Uma realidade em que a velocidade das transformações, resultado
da circulação cada vez mais frenética das informações, obriga o homem a ser
adaptável e maleável, a estar aberto para novidades, a refletir e questionar
ideias preconcebidas. ©



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