Por que a indústria da música ainda insiste na venda de CDs?

Publicado: 28 de outubro de 2009 em Não categorizado

Por que a indústria da música ainda insiste na venda de
CDs?
Por Felipe Gugelmin
Sexta-Feira, 23 de
Outubro de 2009
 
A indústria fonográfica passa pela
maior crise de sua história e precisa se adaptar aos novos meios digitais se
quiser sobreviver.

Quando o assunto são tipos de mídia física
capazes de armazenar vídeos em alta qualidade, é possível falar de cabeça uma
série de siglas diferentes como DVD, HD-DVD, HVD e Blu-Ray. Isso só para citar
os formatos mais populares disponíveis no mercado: em alguns anos devem surgir
alternativas capazes de proporcionar uma qualidade de reprodução ainda maior,
caso dos discos ópticos de cinco dimensões capazes de armazenar até 10 Terabytes
de arquivos.

Mudando o foco para a indústria musical, a
conversa já é outra: em vez de serem discutidos novos formatos de armazenamento
físico, há uma tendência cada vez maior de falar somente sobre métodos de
distribuição digital, seja através do MP3 ou, mais recentemente, do AAC.
Enquanto isso, continua-se falando sobre o declínio de mídias como o LP e o CD,
cujas vendas estão em constante declínio. O mais preocupante neste quadro é que
não se tratam de mídias novas – enquanto o LP já comemora mais de 60 anos de
vida, o CD está completando 27 anos em 2009.

Esta situação é bastante surreal, ainda mais
levados em conta os avanços de tecnologia obtidos em outras áreas. Em vez de
procurar novos formatos que convençam os consumidores de que vale a pena pagar
para obter um álbum original, a indústria musical continua investindo no formato
falido de promoção de artistas através de CDs. Inclusive, parece que há
retrocessos neste sentido: um dos poucos mercados que obteve crescimento nos
últimos anos foi justamente o dos LPs, formato considerado praticamente morto
desde o fim da década de 80.

A opção por
formatos com maior qualidade

Por mais que CDs e LPs continuem sendo os
formatos de mídia mais conhecidos, não significa que não houve tentativas para
desenvolver novos formatos capazes de reproduzir som de alta fidelidade.
Formatos como o DVD-Audio e o SACD possuem uma qualidade de reprodução muito
maior do que CDs convencionais, porém muitas pessoas simplesmente nunca ouviram
falar de sua existência.

O Super Audio CD

O caso mais surpreendente é o do SACD (Super Audio CD), cujos
discos fazem parte da coleção de muitas pessoas sem que elas sequer saibam
disso. Isso porque as mídias que utilizam esta tecnologia possibilitam a
gravação híbrida e possibilitam a reprodução de áudio tanto em leitores de CD
convencionais quanto em aparelhos específicos para este formato.

Tecnicamente o SACD é muito melhor do que o
CD, MP3 ou AAC. Os discos podem armazenar até 8.5 GB, um absurdo se comparados
aos 700 MB de um CD convencional. Isso permite capturar muito mais detalhes
sonoros, permitindo estender a frequência alcançada muito além dos 22kHz dos CDs
– o valor alcançado é de até 100kHz, muito além da capacidade de audição
humana.  Isso sem contar com o alcance dinâmico que permite uma captação
muito melhor de sons agudos e graves, possibilitando a reprodução de música em
alta fidelidade.

Existem três tipos de SACD disponíveis no
mercado: de camada simples, dupla e híbrido, o mais popular. Enquanto os discos
de camada simples são capazes de suportar até 4.7 GB, é possível aumentar este
valor para 8.5 utilizando a alternativa de camada dupla. Já o tipo híbrido
também possui duas camadas que funcionam de maneira diferente: enquanto em uma
das camadas são gravadas as informações referentes à reprodução de áudio em alta
qualidade, a outra é gravada da mesma maneira que um CD convencional.

A forma híbrida se tornou a mais popular
devido à sua versatilidade: quando se coloca o SACD em um CD Player comum, o
disco será reproduzido como um disco qualquer. Quando um aparelho compatível com
a tecnologia é utilizado, entra em cena o sistema Surround 5.1, permitindo uma
qualidade de reprodução maior. Muitos discos lançados no mercado a cada ano se
tratam de SACD híbridos, porém são poucos aqueles que possuem esta indicação
clara na embalagem do produto. O maior exemplo disso é o lançamento da
discografia remasterizada da banda Rolling Stones, que não possui nenhuma
indicação em sua capa de que se tratam de discos compatíveis com a
tecnologia.

Muitos dos discos presentes no mercado vem no formato de SACDs híbridos

Com o SACD, a indústria musical pretendia
repetir o ciclo observado durante a transição do LP para os CDs, em que os
consumidores compraram novamente discografias inteiras com o objetivo de obter
um produto com qualidade de reprodução maior e que ocupasse menos espaço. 
Porém, este não se mostrou um modelo de mercado viável, principalmente devido ao
preço de lançamento dos players compatíveis com o SACD que chegavam a custar
cinco mil dólares. Isso sem contar com a falta de extras significantes que
fossem capazes de convencer o consumidor a comprar mais uma vez toda a coleção
de discos que já possuía: embora tenha suporte a Surround 5.1, eram poucas as
pessoas que dispunham de aparelhos bons o suficiente para sentir a diferença em
relação a CDs comuns (lembrando que estamos falando de 1999, ano em que Home
Theaters ainda eram produtos de luxo restritos aos mais ricos).

Desta forma, o SACD se tornou um formato
restrito somente aos entusiastas do áudio que exigem o máximo de qualidade
possível durante a reprodução de discos. Desde o lançamento comercial do
formato, cerca de seis mil títulos foram lançados – valor irrisório se comparado
aos mais de 26 mil CDs lançados anualmente somente no Reino Unido.

O
DVD-Audio

O DVD-Audio foi um formato criado para
competir com o SACD e não deve ser confundindo com discos de DVD específicos
para o armazenamento de filmes. Os discos e aparelhos compatíveis com o formato
são ainda mais raros e caros do que aqueles disponíveis para SACD, o que torna
esta uma alternativa ainda mais restrita do que a concorrente.

Assim como o SACD, a qualidade disponível é
muito maior do que a de um CD convencional, podendo armazenar 8.5 GB, assim como
seu concorrente direto. Os discos em DVD-Audio podem ser gravados de duas formas
diferentes: utilizando a qualidade máxima de 192kHz/24 bits pode-se obter até 74
minutos de música em alta qualidade. Abaixando a taxa de qualidade para ficar
semelhante a dos CDs convencionais, o formato permite a gravação de um número
muito maior de faixas.

Apesar de os aparelhos convencionais de DVD
serem capazes de reproduzir normalmente DVD-Audio, é preciso comprar um
conversor digital para analógico de 192kHz/24 bits para aproveitar de toda a
qualidade de áudio disponível. Isso porque a maioria dos aparelhos do mercado
vem equipados com um conversor digital para analógico de 95kHz/24, incapazes de
reproduzir com qualidade todo o conteúdo gravado nos discos.

É preciso comprar adaptadores para um aparelho de DVD reproduzir um DVD-Audio com qualidade

O grande obstáculo para a difusão do formato
é a grande dificuldade de encontrar no mercado aparelhos compatíveis com a
tecnologia, sem contar o preço elevado que o consumidor é obrigado a pagar.
Porém, o que determinou o fracasso deste formato na competição com o SACD é a
incapacidade de utilizar discos em DVD-Audio em CD Players comum, fator que pesa
bastante na escolha do consumidor comum.

Como explicar a
crise de vendas que a indústria fonográfica enfrenta?

O Napster reinava absoluto como programa para compartilhar músicas

Para entender o porquê destes formatos de
alta qualidade não terem conseguido conquistar espaço no mercado, é preciso
voltar para 2000, ano em que o Napster reinava absoluto como programa para
compartilhar MP3. Ao processar os donos do serviço, exigindo que encerrasse
definitivamente suas atividades, a indústria musical perdeu uma oportunidade de
ouro para combater a pirataria de seus produtos.

Em 15 de julho de 2000, os principais
executivos das quatro maiores gravadoras do mundo se reuniram em um hotel com o
CEO do Napster, Hank Barry, para tentar chegar a um acordo de licenciamento de
suas músicas.  A ideia era permitir que os cerca de 38 milhões de usuários
do Napster continuassem a baixar arquivos pelo sistema mediante o pagamento de
uma taxa mensal de cerca de 10 dólares. O lucro seria dividido de forma igual
entre o serviço e as gravadoras, garantindo o que o sustento da
indústria.

O acordo nunca chegou a ser concretizado
devido à pressão de revendedores e artistas que não conseguiam ver que o futuro
da música passava pelo meio digital. Enquanto lojistas viam suas vendas
ameaçadas, pois seria muito mais barato pagar a mensalidade do Napster do que
comprar um CD, grandes artistas temiam o fim do lucro obtido pelo lançamento de
novos discos contendo seu nome – a inovação necessária para a sobrevivência da
indústria musical significava ter de canibalizar seu próprio negócio.

O resultado da história todos já sabem: as
grandes gravadoras processaram o Napster, que se viu forçado a encerrar as
atividades de seus servidores. Ao contrário das expectativas da indústria
musical, que esperava uma diminuição dos downloads ilegais, aconteceu justamente
o contrário – os milhões de usuários do Napster se espalharam pelos mais
diversos programas de compartilhamento, que se tornaram uma praga impossível de
controlar. A cada serviço de downloads processado e fechado pelas gravadoras
surgiam dúzias de alternativas ilegais diferentes.

Demoraram dois anos – um período de tempo
absurdo na era digital – para que as gravadoras surgissem com um sistema de
venda de músicas digital eficiente e que se tornasse uma alternativa viável o
bastante para competir com o mercado de downloads ilegais, a Apple Store. Neste
meio tempo, houve algumas tentativas de gravadoras como a EMI, Warner e Sony
para vender música online, como o PressPlay e o MusicNet. Todos esses serviços
falharam pela combinação de três motivos: eram caros, não permitiam que o
usuário gravasse os arquivos baixados em CDs e as músicas baixadas não eram
compatíveis com a maioria dos MP3 Players do mercado. 

Nesse meio tempo a pirataria ganhava cada
vez mais espaço e ganhou força a ideia de que a internet se trata de um
território livre em que pagar por conteúdo é algo desnecessário. Assim, a
maioria dos consumidores prefere baixar arquivos de baixa qualidade de maneira
totalmente gratuita a gastar verdadeiras fortunas para comprar equipamentos
capazes de reproduzir áudio em alta fidelidade. Isso sem contar no fato de terem
que comprar novamente todos os discos que já possuem para poder aproveitar os
novos formatos disponíveis.

Como a internet
mudou o jeito de escutar música

Ao contrário do que muitos pensam, esta não
é a primeira grande crise de vendas que a indústria da música sofre em sua
história – apesar de estar correto quem afirma que em nenhum outro momento houve
tão pouca gente comprando discos. Em 1979 a indústria fonográfica viu uma queda
de 11% em seu lucro, algo totalmente inesperado para um mercado que via cada ano
superar o anterior em números de vendas.

Uma série de fatores contribuiu para este
cenário, o principal deles a própria forma como a indústria fonográfica se
organiza. Como o próprio nome já diz, se trata de uma verdadeira indústria, em
que o objetivo não é a integridade artística, inovação ou complexidade sonora,
mas o puro e  simples lucro. Com isso, tende-se a oferecer ao consumidor
não aquilo que ele pode achar interessante, mas sim algo que ele vai comprar.
Por isso é tão comum ver uma verdadeira enxurrada de artistas semelhantes quando
determinado estilo musical começa a fazer sucesso.

A falta de inovação fez com que o consumidor
inevitavelmente se cansasse da mesmice oferecida a ele e parasse de comprar
discos de novos artistas. Afinal, para que investir em um produto novo se você
já possui diversas alternativas semelhantes em casa? Outro fator que contribuiu
para a queda de vendas foi que o dinheiro empregado para a compra de músicas
começou a migrar para outras áreas como a indústria do vídeo.

Situação semelhante pode ser observada
atualmente: o mercado fonográfico continua utilizando a mesma fórmula já batida
de oferecer diversos artistas semelhantes até esgotar o potencial de vendas de
determinado estilo. Desta forma, em vez de investir em planos de carreira que
permitam que artistas apostem na criatividade e inovação, continua-se à procura
de nomes que vendam grandes quantidades de discos no menor tempo possível. A
partir do momento em que as vendas caem, basta procurar outra banda ou cantor e
repetir o ciclo.

Bandas independentes ganharam espaço com a internet

Com a popularização da internet este ciclo
observado durante mais de duas décadas teve seu fim decretado: em vez de ter que
se contentar com o que as grandes gravadoras e rádios dizem que o consumidor
deve comprar, agora é possível ter acesso fácil a uma grande variedade de
músicas dos mais diferentes estilos sem precisar pagar nada por isso.

Bandas independentes provaram que o meio
digital é uma ótima oportunidade para criar uma base fiel de fãs. Desta forma,
em vez de depender da venda de álbuns para obter sustento, estes grupos viram
que é muito mais inteligente lucrar com a venda de ingressos para shows e
camisetas, tudo isso sem precisar dar nenhuma parte para uma grande gravadora.
Exemplo disso é a banda Arctic Monkeys, que já cultivava grande sucesso no Reino
Unido antes mesmo das grandes gravadoras sequer saberem de sua
existência.

Alternativas
para sobreviver na era digital

Com o meio digital, as grandes gravadoras
que insistirem no modelo de vendas de CDs inevitavelmente terão seu fim
decretado mais cedo ou mais tarde. É preciso entender que o consumidor comum não
faz questão de obter música com alta qualidade sonora, mas sim poder ouvi-la em
qualquer lugar, de preferência pagando pouco ou nenhum dinheiro por isso. Isto
explica o porquê do declínio da venda de CDs, enquanto serviços de música
digital como a Apple Store obtém cada vez mais lucro.

Para sobreviver no mercado atual as grandes
gravadoras têm que procurar alternativas que tornam viável a compra da música.
Uma maneira é investir em fontes secundárias, como o licenciamento de uso de
gravações para comerciais, trilhas sonoras e video games. As séries Guitar Hero
e Rock Band provaram que esta é uma alternativa lucrativa, capaz de gerar
interesse por outros produtos que a indústria musical tem a oferecer.

Investir em redes sociais tem se mostrado
uma aposta essencial para a sobrevivência da indústria fonográfica. Com mais de
500 milhões de usuários espalhados em serviços como Orkut, Facebook e MySpace, a
ideia é aproveitar os relacionamentos já estabelecidos como forma de marketing:
uma pessoa pode apresentar determinada música ou artista para sua lista de
contatos, que poderão comprar arquivos digitais diretamente do site de
relacionamentos. O mesmo poderá ser feito pelas bandas, que terão contato direto
com os fãs, sem intermediários como gravadoras ou assessorias de
imprensa.

Para sobreviver, gravadoras terão de diversificar sua área de atuação

As gravadoras tendem a se transformar cada
vez mais em promotoras de eventos do que simples distribuidoras de conteúdo.
Como os artistas tiram seu lucro principalmente da venda de merchandising e
apresentações ao vivo, investir nestas áreas tem se mostrado uma alternativa
para recuperar os lucros perdidos com a venda de CDs. Além de procurar novos
caminhos que incluam a participação nos direitos de exploração da imagem de
artistas e shows, a indústria musical deverá encontrar outro meio de promover
seus cantores e bandas, de modo a aumentar a procura por ingressos de show e
produtos licenciados.

IN: http://www.baixaki.com.br/info/2969-por-que-a-industria-da-musica-ainda-insiste-na-venda-de-cds-.htm












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