Ficar com certeza, maluco beleza.

Publicado: 15 de janeiro de 2010 em Não categorizado

Ficar
com certeza, maluco beleza
.
 
Todo município do interior tem seus
malucos folclóricos, docemente adotados pela comunidade. Eles conferem
subjetividade à personalidade brusca das cidades; quebram ao meio, na paisagem
monótona, a igualdade das cores, gestos e a aparente modorra dos costumes. 
Em Cachoeiro do Itapemirim há vários assim e também muitos que já se foram, como
Maria Fumaça e Taruíra. Entre os atuais há o imortal Neném Doido, homem capaz de
fumar 15 cigarros ao mesmo tempo, enquanto comanda o trânsito da capital secreta
num pare, siga sem fim; sempre em vertiginosa disparada marchando em direção ao
nada. Uma verdadeira lenda.
 
Entre esses atuais há também o
Agulha, um doidim pequeno e franzino, que lava carros e faz aparições pela
rodoviária sempre pedindo um trocado como se fosse um antigo amigo.  Agulha
sempre comia na casa de Dr. Paulo Herkenhoff. Ia lá em determinado horário e
dona Mery lhe servia um prato de comida todos os dias. Mas certa vez agulha
apareceu fora do horário, bateu na porta como de costume e quando atenderam, lá
estava ele junto com um outro maluco, magérrimo, barbudo e meio hippie. Dona
Mery chama Dr. Paulo e diz que agulha trouxe outro freguês, mas que ela não
estava preparada para servir naquela hora sequer um prato de comida, quanto mais
dois. O velho Herkenhoff chegou até a porta e quando olhou para o maluco
barbudo, firmou a vista, puxou pela memória e – É o Raul Seixas, Raul Seixas!
 
A que devo a honra, porque veio
aqui com o Agulha? Raul responde que foi o primeiro cidadão que ele encontrou em
Cachoeiro e quando disse que precisava chegar na casa do Sérgio Sampaio na rua
Moreira 65, Agulha o levou até ali com a certeza de que eles poderiam
ajudar.
 
Dito e feito: Dr. Paulo, que era
praticamente vizinho dos Sampaio, informou onde era a casa deles e que Sérgio
não se encontrava em Cachoeiro. Raul não viu problema porque tinha certeza que
Dona Lourdes o receberia, mesmo sem nunca tê-lo conhecido pessoalmente. 
Mais uma vez foi batata. Chegando lá, Dona Lourdes e os filhos, Mara e Hélio
Sampaio, receberam o maluco beleza e ouviram dele a história que o levou até
ali, sem aviso ou combinado.  Raul havia ido até uma cidade da Bahia para
dar o pontapé inicial em uma partida de futebol na inauguração de um monumental
estádio de várzea. Foi em seu Fiat 147 junto com a Kika (mais tarde) Seixas e,
depois do pontapé e de torrar a pouca grana que recebera pelo comparecimento, só
sobrou algum para encher o tanque de gasolina e descer a BR-101. Quilômetros
mais tarde, já tendo atravessado boa parte do Espírito Santo, na altura da
entrada para Cachoeiro ele constatou a desertificação do tanque de gasolina e
dos bolsos. Resolveu pedir ajuda à família do Sérgio, de quem fora muito amigo
no início da carreira além de produtor de seu primeiro LP solo Eu quero Botar
meu Bloco na Rua. Nesse disco havia uma música com o subtítulo de Rua Moreira
65, que ele sabia ser o endereço da casa do Sérgio.
Pouco depois de explicar
sua tragédia financeira e o pedido de pouso, concedido plenamente, perguntou se
não dava para conhecer o bar do Auzílio, que ele também só conhecia por relatos
emocionados e pela canção do Sérgio. Lá foram Helinho e Mara com ele para o
Auzílio. Foram recebidos pelo velho Auzílio, apesar da fama do Raul, sem a menor
demonstração de surpresa ou orgulho pela presença do mais espetacular e maior
astro do rock brasileiro. Na mesa, piaba frita, quibe cru, cachaça e cervejas.
Do lado de fora do bar foram se amontoando um bando de cachoeirenses que ficaram
sabendo da presença de Raul Seixas.
 
Há muitas lendas sobre essa
passagem de Raul por Cachoeiro, tudo que é inventado sobre, vira verdade e
verbete no livro das lendas que envolvem Sergio Sampaio. Eu mesmo sei de várias
histórias verdadeiras que qualquer dia até posso contar aqui nesse cantinho. O
fato é que Raul ficou quase três dias por lá, retribuiu a gentileza de sua
hospedagem com roupas, sandálias e outros afagos, tocou violão e cantou suas
músicas no bar do Auzílio em paga às longas rodadas de birita. Conseguiu mais
algum dinheiro para a gasolina e rapou para o Rio de Janeiro. Isso aconteceu em
1981 e, de certa forma, Raul Seixas, de lá pra cá, passou a integrar a notória
legião de malucos da pequena Cachoeiro. Ele e Sérgio, que em uma de suas
melhores composições diz com acerto: sem a loucura não dá.
 
João Moraes,
Produtor sampaísta.
joaopatuleia@superig.com.br.

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Os
fatos prevalecem sobre os documentos.

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comentários
  1. João B. disse:

    SUAS HISTÓRIAS SÃO REALMENTES INTERESANTÍSSIMAS PRA QUEM GOSTA !!! BOM TRABALHO !!!

    Curtir

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