A VOLTA DO FETICHE – Única fábrica de vinil na América Latina, a Polysom retoma suas atividades com quatro lançamentos simultâneos.

Publicado: 20 de março de 2010 em Não categorizado

 

A última
fábrica de vinis da América Latina aproveitou o baixar de cortinas de 2007 para
encerrar suas atividades. A Polysom, cria do maquinário das grandes gravadoras
que abandonaram o bolachão em troca do cristalino CD, estava sulcada em dívidas,
encomendas canceladas, problemas técnicos… Não houve conversa na época e o
fim, como para tudo, chegou. Fim do lado A. Vira o disco…Início do lado B. Eis
2010, ano em que a onda do vinil, que mantinha acesa a chama da Polysom, seguiu
sem virar marola. O momento, a procura por produtos de qualidade e o fetiche
(sim, o fetiche) deram fôlego para que a fábrica abraçasse o bordão
governamental de que o brasileiro não desiste nunca.

Assim – depois de
sua compra por João Augusto, produtor e dono da gravadora Deckdisc, da reforma
dos equipamentos da fábrica e da pesquisa minuciosa por fornecedores que dessem
ao vinil brazuca a qualidade dos discos gringos –, a Polysom está de volta à
ativa. De cara, quatro lançamentos: Cachorro Grande (
Cinema), Fernanda Takai
(
Onde brilhem os olhos seus), Pitty
(
Chiaroscuro) e Nação Zumbi
(
Fome de tudo) terão seus últimos
discos vertidos para o formato vinil, tornando-se os primeiros dos muitos que a
Polysom quer prensar.

Mas até esse momento acontecer, muita água
rolou. E a primeira gota aconteceu ainda em 2009, quando João Augusto teve a
ideia de comprar a fábrica abandonada. “Achamos que a fábrica merecia uma nova
chance e que havia mercado ainda desejoso do formato. Além disso, havia forte
desafio e nós topamos entrar nele para manter a fabricação de vinil ativa no
Brasil e na América do Sul”, explica.

A nova chance, aliada ao desejo do
mercado, se traduz na procura pelo formato, que teve início em 2006 e segue
firme – embora o empresário não acredite que seja a única razão para o fôlego
que o formato tomou. “Essa onda retrô, por si só, não seria suficiente para
fazer toda uma indústria crescer mais de 100% ao ano, como acontece com o vinil
nos EUA. A questão é a seguinte: existem diversos tipos de público que estamos
mirando: as pessoas que ouviam o vinil e gostavam, sentem falta e que, se o
vinil voltar, vão gostar de ter; os xiitas, que só acreditam no vinil, e outros
que ainda irão conhecer o formato.”

A RAPADURA É DOCE,
MAS…

A aposta em trazer a Polysom à vida novamente, se não fosse
arriscada, não seria aposta, por definição. No entanto, é um jogo que João
Augusto não quer encarar pensando em fracasso. “Entramos com capital nisso, para
ajudar a coisa acontecer, mas também não entrei no negócio para perder. As
pessoas encerram seus negócios todos os dias, pelos mais diversos motivos. Se
for preciso, fechamos a Polysom. Mas é claro que neste momento não pensamos
nisso”, garante.

O fato de ser a única fábrica da América Latina também
ajuda a manter os riscos da aposta baixos, mas tudo sendo mirado a médio prazo.
“O vinil é uma coisa que, para ser bem feita, como queremos fazer, sai cara. Os
impostos são altos. Nem num primeiro momento, prevemos uma febre pelo vinil, mas
um sincero interesse”, esclarece João, que arrisca uma previsão. “A médio prazo,
o movimento tende a crescer. Nós, aqui no Brasil, sempre acompanhamos as marolas
do que acontece lá fora. Nos EUA, o crescimento na compra de vinil foi vultoso,
cerca de 150%, ou 2,5 milhões de LPs. Nosso mercado musical sempre consome 10%
dos números lá de fora. Então, se tivermos 250 mil discos no ano, será
maravilhoso.”

Outra garantia para o sucesso da empreitada vem do
cast que a Deckdisc escolheu para retornar às vitrolas. “São artistas de
carreiras consolidadas, que a Deckdisc acredita terem público cativo dentro do
Brasil, capaz de absorver esses novos produtos”, assume João. Se de um lado a
expectativa tem um viés claramente comercial, do outro encontra nos artistas o
desejo de sucesso em mais um meio para difundir seus trabalhos. “A Nação quer
fazer isso desde o começo. Fizemos com nossos primeiros discos, mas gostaríamos
de ter lançado a discografia inteira em vinil”, conta Alexandre Dengue, baixista
do grupo.

A ironia é que, nas palavras de Dengue, o impedimento sempre
partia das… gravadoras. “Tentamos lançar todos os outros discos em vinil, mas
as gravadoras não tinham interesse. Depois desses anos todos, vamos ver nosso
último disco sendo lançado em vinil. É engraçado ver essa volta – para nós, ele
nunca foi. Se a gente pudesse, faria o relançamento de todos nossos discos em
vinil, mas creio que não seria muito possível – gravadoras diferentes.”

RESGATE INESPERADO
Para Fernanda Takai, além do desejo do
vinil, há o “inesperado”. “Todo mundo fica falando na morte do CD e vem o vinil
todo animadinho de volta… Com o Pato Fu, cheguei a lançar dois LPs:
Rotomusic de liquidificapum e Gol de quem?. E faz tanto tempo…
Nunca pensei ver de novo um disco meu nesse formato, sei que tem gente que
queria muito ter o meu disco solo em vinil.”

A cantora, inserida pelo
pai no mundo da música através das fitas K7, demorou muito para ter sua parca,
porém amada, coleção de vinis. “Não cheguei a ter uma coleção imensa, só
daqueles artistas pelos quais me apaixonava de verdade. Então, valorizava demais
cada um deles. Pra mim, comprar um vinil era uma conquista. O que escolhíamos
ter em casa era realmente algo especial.”

Esse sentimento de apreço pela
música e pelo formato deram a Fernanda uma dimensão diferente do lançamento
de
Onde brilhem os olhos seus em
vinil. “Com certeza, vou escutá-lo aqui assim que puser as mãos nele. Ver tudo
no formato que me era tão familiar quando jovem… Dá certa nostalgia, me lembro
de como era bom ir às lojas de disco e perguntar o que tinha de novo.”

Se Takai teve de conquistar seus próprios vinis, Pitty teve os
privilégios da coleção dos pais desde muito pequena e, na adolescência, viu os
tempos e o jeito de ouvir música mudarem. “Presenciei, na adolescência, a
passagem do vinil pro CD, mas sempre tive apego emocional e sonoro com os
bolachões. Ainda conservo os meus de antigamente e fui ampliando a minha coleção
com o passar do tempo.” Para a cantora, que enxerga o lançamento de seu
Chiaroscuro como resgate do
formato, do fetiche, da nostalgia e, principalmente, do som, a relação, quando
pensada pela cabeça de um músico, ganha outros contornos. “Como músico, é
interessante pensar que quem tem essa cultura de vinil visualiza a obra como um
todo, como lado A e lado B, com as músicas se entrelaçando pra contar uma
história. Bem diferente da coisa do MP3, por exemplo, no qual cada canção é
individualizada.”©

ESSE
ROMANTISMO TEM GRAMATURA

Durante a redação deste texto, foi
preciso evitar a repetição exaustiva da palavra “fetiche”. Ainda assim,
ela está espalhada ao longo destas duas páginas por ser uma das grandes
fontes de energia para o retorno da Polysom ao mercado. “O vinil é para
amantes da coisa, pra quem gosta e entende. É pra quem se delicia com todo
o processo: tirar a bolacha da capa, colocá-la no prato e vê-la girar,
perceber o barulhinho da agulha quando encosta no disco, levantar pra
trocar o lado e absorver frequências sonoras mais encorpadas”, teoriza
Pitty.

O que pouca gente sabe é que, ao lado do fetiche, há as
diferenças de peso entre os vinis. Para João Augusto, a questão é menor,
até irrelevante. “É um comprovado mito, quando se fala em termos de som.
Mas o manuseio de um disco de 180 gramas é muito mais legal do que quando
você pega um de 140 gramas, por exemplo. Se o som fosse melhor, os
DJs, que dão valor ao som, só pediriam de 180 gramas, o que não
acontece”, elucida.

Para o Maestro Billy, DJ paulistano com
20 anos de praça e trabalhos variados em rádios e produção de trilhas e
podcasts, a conversa sobre as gramaturas que a Polysom pretende
lançar é mais simples. “Contanto que seja vinil puro, daqueles não
misturados, preto mesmo, com profundidade suficiente pra captar todas as
nuances da música, por mim, está ótimo. Não sei como anda a tecnologia
atual no que diz respeito à prensagem. Não sei se mudou alguma coisa desde
os anos 90. Provavelmente acharei melhor o de 160.”

O DJ,
que hoje se dedica ao digital sem deixar o analógico de lado – “tenho um
toca-discos daqueles antigos ligado à mesa de som, que está ligada ao
computador” –, aponta que o formato do vinil é responsável pela construção
das músicas. “Com o lance todo do MP3, os artistas começaram a fazer
músicas sem introdução. Isso é devido ao formato. Se você aperta o
play do seu MP3 e a música demora a começar, você muda na hora. Com
o vinil, se tem o visual da música, o que abre novamente a possibilidade
para o artista de fazer introduções longas, diferentes, climas leves, como
o Pink Floyd fazia”, arrisca.

 

 

SPassos/Mr. Steps
tel.
(11) 2948 2983
cel. (11) 8304 4568
Site:
www.sylviopassos.com
e-mail: sp@sylviopassos.com
Os
fatos prevalecem sobre os documentos.
 
 







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comentários
  1. neto disse:

    cara isso é muito bom comprarei cm certeza

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