Edy Star na Revista TRIP – Nas Bancas.

Publicado: 13 de maio de 2010 em Não categorizado

 

O primeiro gay a gente nunca esquece

Edy Star, o primeiro artista brasileiro homossexual assumido, fala de desejos e carreira.
 
Ele foi o primeiro artista glam e homossexual assumido do Brasil, estourou em um cabaré e fez o melhor show da última Virada Cultural em São Paulo. Com vocês, todo o brilho de Edy Star, que se prepara para voltar ao Brasil após 20 anos

Imagem: Arquvio pessoal

Edy Star por Antônio Guerreiro, no começo da década de 1970

Edy Star por Antônio Guerreiro, no começo da década de 1970

Cantor, ator, compositor, dançarino, produtor, figurinista e pintor, Edy Star era artista multimídia antes de o termo nascer. Foi roqueiro glam quando David Bowie ainda nem sonhava em comprar seu primeiro kit de maquiagem. De sapato plataforma, chutou longe a porta do armário, sendo o primeiro artista brasileiro a declarar-se gay publicamente, em 1973. Companheiro de Raul Seixas, gravou com ele o tão cultuado quanto maldito Sociedade da Grã-ordem Kavernista apresenta sessão das 10, disco que hoje vale pequenas fortunas sebos afora. Como artista plástico, fez mais de 30 exposições nos Estados Unidos e na Europa, incluindo quatro Bienais.

“Quero aproveitar esse momento que os ‘raulseixistas’ estão me proporcionando”

Apesar disso tudo, porém, a estrela de Edy andava meio apagada por aqui – até a Virada Cultural do ano passado em São Paulo. Edy tocou na íntegra o disco que fez com Raul, trocando de figurino a cada música e esbanjando uma vitalidade surpreendente para os seus 72 anos. O sucesso foi tanto que a organização do evento decidiu repetir a dose este ano, e Edy, animado, voltará a morar no Brasil, depois de 18 anos em Madri, onde trabalhava até mês passado como mestre de cerimônias em um cabaré. “Quero aproveitar esse momento que os ‘raulseixistas’ estão me proporcionando e tentar fazer mais shows por aí. Amo a segurança da Espanha, o flamenco, mas não tenho amigos aqui. Passo dias sem falar com ninguém”. Sozinho, teve também que vencer um câncer na próstata, diagnosticado há quatro anos e hoje sob controle.

Edivaldo Souza nasceu em Juazeiro, na Bahia. Pisou pela primeira vez em um palco aos 13 anos, quando

Imagem: Arquvio pessoal

Raulzito, em 1988, um ano antes da morte do amigo

Raulzito, em 1988, um ano antes da morte do amigo

o pai levou o filho, ávido ouvinte da Rádio Nacional e leitor dos gibis do Capitão Marvel, para cantar em um programa de rádio. Edy sempre soube que seria artista, mas bem que chegou a tentar ser alguém “normal”. Com 20 anos, fez um curso na Petrobras e virou especialista em petróleo. “Odiava aquilo tudo. Eram 1.500 homens no campo e uns quatro ou cinco gays, todos enrustidos. A gente soltava a franga, mas chegava alguém e a gente tinha que mudar a voz, falar de mulher. Sempre escutava umas piadinhas e, ainda por cima, ficava todo sujo de petróleo. Um horror.” Um ano depois, Edy pediu as contas e foi trabalhar no circo. O pai revoltou-se: “Na minha família nunca teve artista!”. “Estava na hora de ter um então”, rebateu o jovem. Foi nessa época que fez um grande amigo, de um jeito que só poderia acontecer na Bahia daqueles tempos. Edy passava em frente a uma casa com um janelão aberto quando escutou a melodia de “Volare” tocada ao piano. Resolveu dar uma espiada, no que o jovem músico chamou-o para entrar. O jovem de 17 anos, no caso, era Caetano Veloso. Edy acabou ficando para o café, conheceu dona Canô e também Maria Bethânia, única artista que considera “uma deusa, acima do bem e do mal”. “Eu e Caê começamos a frequentar umas festas em Santo Amaro. Trocávamos as meias, um pé azul e outro vermelho, só para fazer graça. Éramos os reis dos bailes, porque só puxávamos as mulheres mais velhas para dançar. As meninas ficavam malucas atrás da gente”, ele rememora.

Sexo, cuba-libre e rock´n´roll
Edy fez parte de alguns grupos de teatro e depois virou produtor artístico da TV Itapoan. Em seu programa, viu surgir talentos como Moraes Moreira e Pepeu Gomes, anos antes de os Novos Baianos pensarem em existir. “Nessa época não havia axé, graças aos bons deuses. A Bahia era sinônimo de João Gilberto, Glauber Rocha, Quarteto em Cy… uma efervescência cultural incrível. Depois todo mundo foi para o Rio ou para São Paulo, e a Bahia ficou essa merda que é hoje, sem vida própria.” Paralelamente, Edy cantava nas rádios da cidade, fazendo sucesso com uma versão afetada de “La Bamba”. Raul Seixas, atração principal da emissora, ficou enciumado e a relação dos dois no início não era muito boa. Mas Edy, ao seu modo, foi pouco a pouco dobrando o maluco beleza: “Eu passei um mês ligando para Raul fingindo ser uma fã apaixonada, ficava falando mal de mim mesmo. Um dia, ele gravou a conversa e foi mostrá-la todo bobo para Waldir Serrão, diretor da rádio, que disse: ‘Ô, Raul, tu é besta mesmo. Não tá vendo que é Edy?’. Ele ficou puto, mas depois viu que tínhamos mais coisas em comum do que diferenças. E, como viadagem não é contagiosa, viramos grandes amigos”.

 

“Odiava trabalhar na Petrobras. Eram 1500 homens e uns quatro ou cinco gays, todos enrustidos”

Com tantos artistas reunidos em um mesmo local assim, natural que houvesse muitas festas. Edy organizava luaus na praia, frequentados pela nata da MPB, e “que até hoje são comentados na Bahia”. E o esquema era sexo, drogas e rock’n’roll? “Da minha parte, mais ou menos. Eu nunca bebi bem. Faço o possível para ficar bêbado, mas não consigo, meu organismo me corta quando estou começando a ficar alto. É uma merda. Queria tanto trepar bêbado, mas nunca consegui. Mas era só bebida mesmo, no máximo um fuminho. Não existia cocaína. Tinha muita cuba-libre, isso sim. E eu sempre fui monógamo. Fazia-me de promíscuo, mas era só personagem. Transar mesmo, só com o meu caso.” Edy teve alguns, inclusive com gente do meio artístico, mas não revela nomes: “Vou comprometer muita gente, porque sempre fui ativo”. E confessa que seu sonho de consumo mesmo era Mick Jagger, que conheceu uma vez em Salvador: “Ele é um atleta, tem um beiço lindo. Aquela boca chupando deve ser o máximo!”.

“Mick Jagger é um atleta, tem um beiço lindo. Aquela boca chupando deve ser o máximo!”

Edy ainda cruzou com outras estrelas em sua vida, como Michael Jackson, Ravi Shankar e Janis Joplin. A roqueira hippie ele conheceu durante um carnaval em Salvador, sentada na rua, conversando com as prostitutas e dando belos tragos de cachaça e do tal “fuminho”. Suas histórias pela capital baiana incluem um barraco no hotel em que estava hospedada, quando quebrou tudo porque não a deixaram entrar. “Também, feiosa, suja e com um monte de cabelo no sovaco daquele jeito…”. Janis foi para a Bahia na garupa da moto do fotógrafo Mick, seu namorado carioca. Reza a lenda que ela não parava de reclamar da chuva, que a impedia de transar na praia. E que, brigada com o affair, voltou para o Rio trocando favores sexuais por caronas de caminhoneiros.

 

Imagem: Arquvio pessoal

No show histórico da Virada Cultural do ano passado

No show histórico da Virada Cultural do ano passado

Edy vira Star

Depois de quatro meses sem receber na televisão, Edy resolveu cobrar os salários atrasados no ar. Foi demitido no ato. Indo para um bar próximo para refrescar a cabeça com um chope, reencontrou Raul, que já morava no Rio, onde era produtor da CBS. “Bofélia [era como Raul o chamava], era você mesmo que eu estava procurando!”, ele disse, e convidou o amigo para fazer parte do quadro de artistas da gravadora. Depois de cantar em alguns compactos, surgiu a ideia do Sociedade da Grã-ordem Kavernista apresenta sessão das 10, gravado pelos dois, por Sérgio Sampaio e Miriam Batucada. Muitas lendas rondam a gravação do disco. A maioria delas, diz Edy, foi inventada pelo próprio Raul, “um mestre da autopromoção”. Dizia-se que o disco havia custado R$ 24 milhões, que tinham usado uma harpa egípcia raríssima, que as gravações tinham sido feitas às escondidas durante a madrugada… tudo estratégia de marketing. Mesmo assim, o disco foi ignorado por público e crítica. Uma semana depois do lançamento, a sede internacional da CBS enviou um bilhete escrito apenas “What is this?”, e ordenou que o recolhessem das prateleiras. O status de obra de arte – alguns o chamam de o “Sgt. Pepper’s brasileiro” – só veio décadas depois.

A CBS mandou um bilhete perguntando “What is this?” e mandou recolher o disco da Sociedade

Edy então começou a se apresentar em boates de Copacabana, perto do Beco das Garrafas, o berço da bossa nova. “Mas eu não cantava no Beco, meu amor. Ali era só gente de altíssimo nível. Eu frequentava, era amigo do porteiro, do músico. Do pessoal da bossa mesmo eu não conhecia ninguém. Não se misturavam com gente normal, da rua, como eu. Eram artistas maravilhosos, sabe?!”, ele ironiza. De lá, foi para os cabarés da praça Mauá, no centro, onde explodiu para a fama com um show inspirado no filme Cabaret, com Liza Minelli. O Star do nome surgiu nessa época. O Pasquim e a mídia em geral adotaram Edy, que, em uma entrevista para a Fatos e Fotos, soltou a bomba: “Tive coragem de assumir quem eu sou”, dizia a manchete. “Eu tinha uma mulher na época, que leu a reportagem na ponte aérea. Eu nunca escondi nada dela, namorava um paraquedista ao mesmo tempo. Houve polêmica, mas eu nem liguei. Eu sou independente, querido. Quando choro, ninguém chora por mim. Quando pago o apartamento, ninguém paga por mim. Quem me quer, quer. E agora é pior, que eu estou barrigudo. Ou me aceita com a barriga, ou então, meu amor…”


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Os fatos prevalecem sobre os documentos.
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