“Eu quero é botar meu bloco na rua”: a glória do ‘maldito’ Sérgio Sampaio

Publicado: 26 de maio de 2010 em Música

"Eu quero é botar meu bloco na rua": a glória do ‘maldito’ Sérgio Sampaio

Leonardo Guedes | Música | 24/05/2010 16:16

Quando
o cantor e compositor capixaba Sérgio Sampaio morreu, em 1994, as
poucas notas divulgadas na imprensa sobre o fato passaram ao grande
público a sensação de que sua obra musial se resumia ao hit "Eu quero é
botar meu bloco na rua", marcha-rancho-arrasta-povo que obteve destaque
no VII Festival Internacional da Canção transmitido pela "Rede Globo"
em 1973. Os fãs não se conformaram com o rótulo de
cantor-de-um-sucesso-só e iniciaram um trabalho de preservação e
divulgação de sua memória que perdura até os dias atuais. Seus poucos
discos são disputadíssimos nos sebos de todo o Brasil e tem preços
elevados, tamanho o grau de raridade.

Antes
de por seu bloco na rua, ele já tinha passado por um momento de
notoriedade: participou do polêmico (e hoje cult) "Sociedade da
Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das Dez", uma patuscada produzida
em 1970 por seu amigo Raul Seixas na gravadora CBS. Além de Sampaio e
do Maluco Beleza, também gravaram o cantor andrógino Edy Star (uma
versão baiana de Ney Matogrosso) e a sambista Miriam Batucada (como o
nome indica, ela era conhecida por interpretar sambas batucando com as
mãos. Também faleceu em 1994). No mais, o cantor aproveitava seus
trabalhos de freelancer como locutor de rádio para divulgar seus discos
compactos, que tocavam muito e vendiam bem. O auge veio mesmo é com a
marcha-rancho: com tom de desabafo e refrão empolgante, levantou o
público presente no Maracanãzinho (Rio de Janeiro) para acompanhar o
festival. Resultado: contrato com a gravadora Philips para gravar seu
primeiro disco completo. O nome da obra, para atender ao apelo
comercial, ficou sendo "Eu quero é botar meu bloco na rua".

A
capa era uma bizarrice que só vendo: o nome do cantor escrito com uma
fonte, digamos, sanguinária. Na parte de baixo, rolos de filme
apresentando um Sérgio Sampaio fazendo as mais horripilantes caretas,
dignas de provocar pesadelos durante o sono. Tudo isso remetia a
segunda faixa do lado A, "Filme de terror", um rock bem suingado: "Hoje
está passando um filme de terror / Na sessão das dez, um filme de
terror / Tenho os olhos muito atentos / E os ouvidos bem abertos / Quem
sair de casa agora / Deixe os filhos com os vizinhos". Aliás, é bom
recordar que o ano de lançamento, 1973, foi o auge dos chamados e
tenebrosos "Anos de chumbo" da Ditadura Militar. Malandramente, ele
inseriu a atmosfera sombria do período em outras faixas, de forma bem
gaiata: na tensa "Labirintos negros", num clima de suspense e música
murchando no final ("Por trás dos edifícios / Da cidade moderna / Os
labirintos negros / Prendem o que esperam / A condução, ou não / A
confusão, ou não / A confusão, eu não"); na toada "Viajei de trem" ("O
ar poluído polui ao lado / A cama, a dispensa e o corredor / Sentados e
sérios em volta da mesa / A grande família e o dia que passou / Viajei
de trem, eu viajei de trem") e na debochada "Não tenha medo, não (Rua
Moreira, 65)" ("Suje os pés na lama / E venha conversar comigo / Comigo
/ Chore, esqueça o drama e venha aliviar / O amigo / Vem, não tenha
medo / Não tenha medo, não / A barra está pesada / Vem, não tenha medo
/ A barra pode aliviar").

Também
houve deboche em outras duas composições: "Lero e leros e boleros", na
qual espinafra a nascente indústria cultural de massa ("Leros e leros 
/ Tudo enche meus ouvidos / Por que tanta gente rindo / No filme que eu
vi?") e no samba "Odete", onde desanca uma hipotética desafeta amorosa,
com direito à citação de "Que maravilha", de Jorge Ben, no refrão final
("Você é mesmo carne de pescoço / Você é burra como não sei o quê / Eu
rôo um osso desde um tempo antigo / Desde um tempo lindo / Ao conhecer
você… Por entre bancários, automóveis / Que maravilha").

Passional,
Sérgio Sampaio também fazia desabafos. Expôs seu desejo de ter uma
música gravada por seu conterrâneo Roberto Carlos em "Eu sou aquele que
disse", citando uma referência tropicalista (Caetano Veloso): "Cante,
converse comigo / Antes que eu cresça e apareça / Mesmo eu não estando
em perigo / Quero que você me aqueça / Neste inverno, ou não / Neste
inferno, ou não". Com relação ao Rei, Sampaio levou a frustração para o
resto da vida. Afeito às raízes familiares, parecia dialogar com o pai
em "Pobre meu pai" ("Pobre meu pai / A marca no meu rosto / É do seu
beijo fatal / O que eu levo no bolso / Você não sabe mais / E eu posso
dormir tranqüilo / Amanhã, quem sabe?") e com a mãe em "Dona Maria de
Lourdes" ("O auditório aplaudiu / Mas cuidado com a porta da frente /
Dona Maria de Lourdes / Não espere por mim").

Gravou
uma composição do pai (a quem se refere orgulhosamente como "maestro
Raul Sampaio", uma vez que o citado era mesmo maestro de banda em
Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo), a hilária "Cala a boca,
Zebedeu". A música é baseada na história real de um marido submisso que
vivia levando esbregues da esposa dominadora e acaba sendo trocado por
um jogo da Seleção Brasileira: "Que mulher danada essa que eu arranjei
/ Ela é uma jararaca meu Deus / Com ela eu me casei… Ontem eu falando
com ela ela gritou / Cala a boca Zebedeu / Não se meta comigo / Porque
na minha vida quem manda sou eu".

O
resumo de tudo é que "Eu quero é botar meu bloco na rua" é um disco
primoroso: arranjos caprichados com instrumentistas de primeira (o
próprio Sampaio no violão, Mamão e Wilson das Neves na bateria, e José
Roberto Bertrami no piano), letras simpáticas e habilidade criativa.
Mas vendeu pouco. O compacto que continha a faixa-título obteve mais
saída. Em seguida, a saída da Philips a fama de "maldito" começando a
abreviar sua carreira: temperamento pouco flexível diante das
imposições de mercado, pouca estrutura para lidar com o dinheiro,
boemia em excesso, drogas, álcool e o mesmo fim do amigo Raulzito
Seixas, a quem dedicou-lhe gratidão na última faixa com um sambinha bem
curto: "Meu nome é Raulzito Seixas / Eu vim da Bahia / Vim modificar
isso aqui / Toco samba e rock, morena / Balada e baioque". Os dois
morreram da mesma doença: inflamação no pâncreas.

Ficou
a lembrança de um artista talentoso e autêntico, que parecia prenunciar
seu destino no refrão de "Lero e leros e boleros": "Ai, meus amigos
modernos / Ai, meu sorriso de adeus / Vou me fazer de eterno / No meu
encontro com Deus".

Dois
vídeos seguem: Sérgio Sampaio canta "Eu quero botar meu bloco na rua"
numa apresentação de 1973 no Anhembi, em São Paulo, com uma performance
irreverente e um tanto quanto pornográfica. O rapaz que aparece na
plateia é o bailarino americano Lennie Dale, conhecido no Brasil nas
décadas de 1970 e 1980. No outro, uma montagem baseada em "Filme de
terror":

IN:http://www.sidneyrezende.com/noticia/87539+eu+quero+e+botar+meu+bloco+na+rua+a+gloria+do+maldito+sergio+sampaio

Sylvio Passos 

tel. (11) 2948 2983 

cel. (11) 8304 4568 
Os fatos prevalecem sobre os documentos. 

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