“Aqui, eu seria processado diariamente”

Publicado: 12 de julho de 2010 em Música

“Aqui,
eu
seria
processado
diariamente”

Confira trechos
inéditos da conversa de Edy Star com o repórter Chico Castro:

Fotos: Thiago Teixeira
| Ag. A TARDE

Volta ao Brasil

Definitivamente é uma palavra muito forte. Eu voltei ao Brasil para
ficar. E ver até onde vai dar. Se não der para ficar, aí eu tenho um
plano B. O plano B é largar tudo para morar no interior não sei-da-onde
e desaparecer do meio artístico. Desaparecer. Eu tô há muitos anos
querendo voltar. Não é uma coisa que eu decidi ontem ou no mês passado.
Há cinco ou seis anos, eu sempre disse que ia voltar. Passei oito anos
lá ilegal, sem documentação, trabalhando, mas nunca me esforçei para
tirar os papéis porque nunca achei que ia morar definitivamente na
Europa. Mas agora que eu tenho tudo… primeiro que a Europa já não é a
mesma de 18 anos atrás. Não. Decaiu muito, muito mesmo. A Espanha já
não é a mesma e essa coisa, a tal famosa crise, o local aonde eu
trabalho caiu muito a frequência. Mas não só lá, caiu a frequência em
tudo que é lugar. A Espanha caiu muito. Temos lá 23% de desempregados.
Eu vejo muito brasileiro passando fome, a maioria tentanto voltar – ou
já voltaram.

Planos com os Vira-Latas de Luxo

Tenho uma série de shows já, no dia 8 de julho eu já tenho show em São
Paulo. Planos em Salvador, eu tenho. Conheci umas bandas e escolhi uma
de um cara, um compositor fantástico, chama-se Marcelo Letal. A banda é
a Vira-Latas de Luxo. A banda é muito boa, o cara é muito bom
compositor. Estou apaixonado pelas músicas dele. É daqui de Salvador,
da Cidade Baixa. Ouvi outras bandas (tom irônico), essas bandas que são
boas, maravilhosas, divinas, fantásticas e se apresentaram com fulano e
sicrano. Mas esta banda, que não apresentou um currículo assim
“divino”, me conquistou. Já fizeram shows em festivais, no Pelourinho
etc e são muito bons. Vou gravar músicas dele. Estou preparando um
trabalho com eles em Salvador. Pelo menos, espero fazer isso em breve.

Rock local

Não não quero citar nome de outras bandas, para todas eu torço o nariz,
eu acho todo mundo muito metido a bom. Todos são bons, ótimos. Fez show
com fulano, então prefiro não citar. Prefiro citar o nome do bom que eu
achei e não dos ruins, por que aí… eu crio um ranço né?

Márcio Meirelles

Não digo que sou amigo íntimo, mas sou amigo de Márcio. Aplaudi Márcio
há muitos anos atrás, quando ele era diretor, na montagem de MacBeth, e
era maravilhoso. Ele sempre foi muito bom nisso. É uma pessoa que gosto
muito, mas não posso falar da gestão dele por que não vivo aqui.
Gostaria de entrar aí com um projeto em algum edital, mas aí vem o
pessoal e me diz: “Por que você vai entrar com um edital agora em 2010,
se ainda não pagaram o edital 2008?” Entende? Então, eu fico assim, me
meto com edital, venho de São Paulo pra cá, armo uma coisa e depois não
recebo o dinheiro. Aí é um pouco forte, né? Tem um erro aí. Mas é isso
mesmo. Tá tudo ótimo, a Bahia é linda, maravilhosa, sensacional.

Política de editais

Em parte, vou gravar via edital, mas não vou ficar esperando. Vou tirar
do próprio bolso. Quer dizer, eu puder fazer, eu faço. Agora, claro que
é arcar com… como posso dizer? Se você faz disco do próprio bolso, os
amigos ajuadm, mas não tem só Salvador, Bahia, né? Você tem São Paulo,
Petrobras etc… Sem tantos problemas quanto a Secretaria de Cultura da
Bahia. Se você for ler o edital, é tudo muito bom, mas quando chega na
parte de prestação de contas, é quase impossível cobrir as metas que
eles pedem. Você tem que ter o canhoto, a nota fiscal em nome do cara
que propôs. Se você tem um secretário para fazer isso não vale, por que
tem que ser em nome do proponente e uma série de outras coisinhas que
dificultam.

Carnaval

Meu filho, eu acho que, aqui no Brasil é como no mundo, veja só: por
que tem tanto camelô na Rua Chile? Por que tem gente para comprar! Aí
você pergunta: “por que tudo é tão caro no Carnaval”? Por que tem gente
pra comprar! E a cada ano será mais caro, terá mais camarotes, claro,
por que tem gente pra fazer e gente pra pagar para entrar. Então, o
Carnaval na Bahia é uma grande indústria que enriquece alguns e os
pobres, maravilhosos, como macacos levantando a perninha e botando para
lá e tá tudo muito bem. Eu vou deixar de aplaudir eles? Não! Os
artistas estão certíssimos! Eu acho que eles deviam cobrar mais caro,
deviam dobrar o cachê a cada ano! O povo adora! Ô, queria eu! Mas não
é? O sonho de todo mundo é ser rico! Eu vou dizer “não, não dou valor
ao dinheiro”? Mentira! Eu dou valor ao dinheiro pra cacete! Queria eu
estar bilionário com uma casa com dois estúdios de gravação. Como diria
Ruy barbosa, “fora do sistema não há salvação”. É uma grande indústria
do camarote, do abadá, do trio elétrico. E tá tudo muito bem. São mil
pessoas que fazem o carnaval para 500 mil pularem em redor e pagarem,
que brigam para comprar um abadá enquanto mil passam fome, comem x-tudo
com refresco de limão para sair no Carnaval. Agora, isso não foi uma
evolução. Foi uma regressaão em nome do dinheiro. Quantas vezes, saí
com Moraes (Moreira), sem abadá, sem dinheiro e era tão bom. Agora isso
se acabou. Hoje as pessoas saem no bloco pra dizer que saíram, pra
ficar etc. Isso não é evolução.

Processo de Bell do Chiclete contra
Nizan Guanaes


Como é? Se ele é careca, ele processou por que disseram que é careca?
(pasmo) Três palavras para definir: PQP! Onde é que nós estamos, hein?
Então, aqui, eu seria processado diariamente.

Pelourinho

Outro dia me perguntaram o que eu achei do Pelourinho. Eu acho isso
aqui o melhor mostruário da Suvinil! Não é? Eu acho lindo! Olha só, eu
quero minha casa daquela cor ali! Eu acho lindo pra tirar turista
fotografia a cores. Agora, tecnicamente, existe aquilo? Não existe! É
uma porcaria! O pior é que a Suvinil descobriu como ganhar dinheiro com
isso… olha, deixa pra lá! Agora Olinda está sendo pintada desse jeito,
(o Centro velho do) Maranhão está sendo pintado desse jeito, e assim
vai. Então teremos futuramente todas as capitais do Brasil igual ao
Pelourinho: uma casa verde, a outra rosa, amarelo, ocre.. eu acho
maravilhoso. Mas que é um grande mostruário para as fábricas de tintas,
isso é.

Pelourinho, Mestre Pastinha e a
polêmica de Caetano Veloso


Quando li a crônica de Caetano, Vamos cuidar do Pelourinho
primeiro, vamos partir da premissa que o Pelourinho é um projeto
falido. Eu me lembro, em 1969 ou 70, projetou-se revitalizar o
Pelourinho. Aquilo seria o Saint Germain de Pres da Bahia. O bairro dos
artistas, eles iriam morar lá. Aí tiraram a zona, tiraram Pastinha da
casa dele, prometeram remodelar a casa, nunca mais devolveram a casa
dele. Mestre Pastinha morreu de tristeza! Nunca mais levantou a cabeça
e morreu de tristeza. E o Pelourinho se tornou o maior mercado de
buginganagas da América Latina! Por que todas as lojinhas vendem a
mesma coisa. Sou contra não, tá tudo lá (bate palmas). Tiraram os
puteiros de lá pra fazer isso? E nennhum artista foi morar lá. Eu
espero não ser processado por essa reportagem!

Cantoras de axé e “gay, não!”

Agora não falo das cantoras – se cantam mal ou não, elas tem seu
público imenso e você não pode lutar contra a situação, ficar dizendo
fulana canta mal, sicrano é careca! Eu espero que não digam que eu sou
viado, por que aí eu processo! (risos) Se disserem que eu sou bicha,
vou processar! Eu não sou bicha, eu sou bichíssima! Se disser que eu
sou gay, piora, vou querer mais dinheiro ainda! O Brasil não tem gay,
tem viado, bicha, baitola. Mas gay, não!



Teatro baiano


Estou fora da Bahia há uns vinte anos, então, quando venho aqui, leio o
jornal um dia, vejo o que tem para ver. Algumas peças eu vou, e, graças
a Deus, nas vezes em que estive aqui, fiz boas escolhas. Vi muitos bons
espetáculos de teatro, como Vixe Maria Deus e o Diabo na Bahia, que
achei fantástico. O trabalho dos atores, a direção, a cenografia, achei
espetacular. Vi O Indignado, também gosto
muito dele. O pessoal da Bofetada, que continua muito bom apesar de
todos esses anos. Eles vão ficar 500 anos fazendo aquilo e são
maravilhosos. Quando o espetáculo é feito com uma certa seriedade, fica
bom, agora tem alguns que são invenção pura. Essa juventude inventa
muito, né?

Miséria cultural e Rebolation

Querido, quando você me diz que a indústria da Bahia é o carnaval, o
que você quer mais? Tomaram conta de tudo! Me diga o nome de um bom
pintor na Bahia hoje? Não tem. Um bom gravurista? Não tem. O nome que
você disser tem 50 anos ou mais. Em 64, Caetano e Chico tinham vinte,
22 anos. Hoje você não pega um artista bom. Está na moda, está na
mídia, mas realmente bom, não tem. Eu não sei por que isso. Estamos tão
sem educação, sem cultura, não é culpa do público, né? A gente tem um
presidente analfabeto, então estudar pra que? Sem estudar podemos
chegar a presidente! Hoje em dia as crianças levam celular pra sala de
aula, ficam atendendo o telefone! Ahhh, me poupe! A internet e a falta
de cultura contribuem para isso! A Bahia, que já viveu uma explosão de
cultura nas artes aplásticas, nas artes cênicas, cinema… tudo era em
Salvador! E não vou dizer que saiu daqui e foi pro Rio, SP, não! Quando
foram pro Rio, todos os diretores resolveram fazer nouvelle vague,
filme pra dentro, para eles mesmos. Ninguém ia assistir, mas todo mundo
queria pegar o dinheiro da Embrafilme! Agora que descobriram que cinema
é indústria, estão fazendo filme para as pessoas darem risada, rá rá,
rá, esse filme é ótimo! E em Salvador, todo mundo tá trabalhando,
fazendo teatro, música, cinema. Mas falta (soletra) qua-li-da-de. Ontem
encontrei um cara na rua e ele queria que eu fosse dar uma palestra
para mostrar a verdadeira música! Eu? Me respeite, meu filho! Eu posso
te mostrar uma boa posição para transar! Tá doido! Vou ficar “olha
minha gente, não façam e tal”! Vão me jogar pedra! Eu vou é pro
Rebolation. O cara do Rebolation disse numa entrevista que a música
dele não tem segunda intenção. Não tem segunda por que diz logo na
primeira, né? E eu vou tirar o aplauso desse cara? Não! Tá todo mundo
na rua dançando, até a Dilma, vou fazer o que? Ora, viva a Bahia!

Raul, Big Ben e Thildo

Toda vez que venho a Baha, visito o túmulo de Raul e também vou ver o
Waldir Serrão. São dois grandes amigos meus. Fiquei contente de ver que
o Waldir tá lúcido! Ele lembra de tudo! Gosto muito dele e fico sentido
de ve-lo do jeito que está, sem poder fazer nada. Quem segura a barra
de Waldir é o Thildo Gama.

Raulseixismo

Em São Paulo o raulseixismo é uma verdadeira religião. E o Sylvio
Passos (fundador do fã-clube Raul Rock Club) cuida daquela coisa toda,
sofre o diabo com as merdeiras (sic) de Raul. Tirando Kika e a filha,
as outras são umas merdeiras com advogados que só querem achacar!
(Pausa) Aí! Tira isso, senão vão me processar! (Risos). E o Sylvio tá
sem dinehiro, teve até que tirar o portal do Raul do ar, por que ele
nunca ganhou nada com seu trabalho em prol da memória de Raul.

Foto: Arquivo Pessoal

Sessão das Dez

Raul descobriu que se autopromovia contando histórias. “Olha, hoje não
dormia a noite toda pensando em um disco voador que estava em frente a
minha janela”. Mentira, roncou a noite toda. E ele ria com aquilo e
apredendeu a tirar partido dessas besteiras. Eu e Sérgio (Sampai) nos
afastamos dele por que era muita porralouquice. Ele se juntava com PC
(Paulo Coelho) e inventava que se conheceram por que estavam na Barra
da Tijuca quando baixou um disco voador. Aí olharam um pro outro: “você
viu o que eu vi?” e ficaram amigos. Foi assim que se conheceram. Claro
que não foi assim. (faz voz de mistério) “Este é Raul. Este é PC. Eu
quero que se juntem para formar a maior música de rock do Brasil”. Raul
era muito gozador, sempre foi! Quando acabou de gravar o Sessão, acabou
a ironia na música dele, aquela esculhambação total. Pelo menos,
naquele nível, ele nunca mais fez igual. E o disco foi pensado, ele
queria fazer um disco-resposta ao Tropicália (Panis et Circensis), ao
Mothers of Invention (do Frank Zappa)e o Sgt. Peppers, que ele adorava.
Ele queria fazer uma versão disso. Vamos falar disso, daquilo, no meio
botamos uma vinhetas. Era ele, eu e Sérgio Sampaio naquela sala, dando
risada, escrevendo um monte de putaria no papel que depois jogava fora,
por que tinha acensura. Foi muito fácil fazer, Sérgio tinha uma
facilidade incrível para compor e Raul também, com toda sua experiência
de produtor da CBS. Eu vinha com um (cantarola) lá lá rá, lá lá, e ele
desenvolvia e a música tava pronta. Aí a gente pegava as letras e
mandava para a censura. Então muitas faixas foram reprovadas. Todas as
minhas foram reprovadas, vinha com aquele xis vermelho: “indutivas ao
uso de álcool” e tal. Mas as músicas não queriam dizer absolutamente
nada. Depois, procuramos que mulher ia entrar. Pensou-se em Lena Rios,
é uma cnatora que hoje vive no Piauí. Não deu por que já estava com
Torquato Neto. Diana também já estava comprometida com o iêiêiê
romântico. Aí apareceu Miriam Batucada, que era maravilhosa e ainda não
era conhecida. O disco foi lançado, nós fizemos divulgação nas redações
dos jornais, demos entrevista. 15 dias depois aconteceu o famoso
“What’s this” da matriz e tirou-se o disco de circulação. A censura foi
da própria gravadora. O disco saiu, as músicas liberadas pela censura e
todas foram foram gravadas.

Sweet Edy

O Sweet Edy eu tive uma proposta de relançamento em vinil. Não vamos
lançar em CD. Eu quero em vinil, com tiragem pequena. Vamos colocar
mais duas faixas não lançadas, como bônus. E meu próximo álbum será uma
continuaçao do Sweet Edy.

IN:
http://revistamuito.atarde.com.br/

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