Lobão – 50 Anos a Mil

Publicado: 2 de dezembro de 2010 em Livros, Música, Music

Lobão - 50 Anos a Mil

Lobão - 50 Anos a Mil


Um passado que não se apaga
Na biografia 50 anos a mil, o cantor e compositor Lobão fala da carreira, da prisão, do sentimento de exclusão da classe artística e até de música.

Sonia Maia
09h14 27/11/2010

Lobão mora com a mulher Regina Lopes em uma casa modesta e aconchegante, num bairro nobre da zona sul de São Paulo. Atrás, mantém um estúdio de 3x3mts, equipado com computadores, mesa de som, gravadores, bateria, guitarras e a gata Maria Bonita, que não o deixa um minuto. Conhecido por seu caráter hipeartivo, fala ininterruptamente, tornando o ofício de entrevistá-lo uma missão exaustiva. Apesar do trem desgovernado, consegue manter a conversa nos trilhos e na mesma vibração emocional, seja qual for o tema.

Terminou as três horas de entrevista tocando as canções inspiradas no livro, que traz um código de barras para baixá-las gratuitamente. Elas serão também lançadas em compacto simples, junto com um DVD e três CDs-compilação. A primeira é uma homenagem a Júlio Barroso, líder da banda Gang 90 e As Absurdetes, da qual Lobão fez parte no começo dos anos 80. Das poderosas caixas do estúdio, saiu uma canção-balada, com base de viola caipira, mas pontuada pela bateria de Lobão, pesada e bem marcada.

A segunda, ‘Som Pós-Sampa’, tocada só ao violão, ilustra o último capítulo do livro sobre sua mudança do Rio para São Paulo em 2006. A música começava com um riff crescente e forte que, apesar do formato canção, pareceu estar no ponto para uma versão mais rock’n’roll.

Lobão hoje encabeça o Lobotomia, programa de entrevistas e debates da MTV.

A gênese do livro – Durante toda a minha carreira, tentaram me achincalhar, me chamar de maluco, criaram vinhetas do tipo “adoro ele, mas é uma pena que se droga muito, não fala coisa com coisa…”. Se eu não colocasse isso no papel, se eu não fosse atrás de documentação que provasse o contrário, iria virar mais louco que o Lobão. E a história não é essa – tenho certeza que não é.

Os suicídios dos pais – Mostro no livro situações muito graves de educação e de formação. Meu pai se matou em 2003 com veneno de rato. Minha mãe, que trabalhava como professora de inglês, morreu no ano seguinte, depois de dezesseis tentativas de suicídio. Chegou a um determinado ponto que eu mandei ela morrer mesmo, estava descontrolado, não agüentava mais chamar ambulância, correr para o hospital… Ela engoliu fundo aquilo que eu disse e não apenas escreveu uma carta me culpando pela morte como leu aquilo para os alunos. Depois, deixou de tomar o remédio para o coração e teve um infarto fulminante. No enterro, os alunos sussurravam para mim: “assassino! Assassino!” Imagina a saia justa. Minha mãe lá deitada e eu, todo desmilinguido, tendo que botar a bandeira do Botafogo em cima do caixão e cantar o hino do time por que ela me fez prometer isso. Paroxismo total. Tive que fazer muita análise para sublimar tudo isso. Demorou muitos, muitos anos.

Infância e adolescência – Sou o único sobrevivente de uma nefrose aos dois anos de idade – não podia fazer nada, era privado de tudo, superprotegido e higienizado do rock. Tive que tocar bossa nova, uma coisa ostensiva por um tempo em minha vida. E cortavam meu cabelo máquina um, sofria bullying na escola, parecia um garoto anacrônico. Nas festinhas, todo mundo com calça boca de sino e eu de tergal, mocacim e alça de boquete. Quando chegava minha vez nas brincadeiras de fila de garotos perguntando às garotas: “você quer pera, uva, maçã ou salada mista?”, a menina dizia: “obrigada, já comi!” Enfim, eu era um pele! E foi assim até os 18 anos. E aos 22, quando saio, é com uma fome de gol violenta – queria desfrutar de tudo.

A demissão da Blitz – Eu fiz a Blitz para colocar meu trabalho junto dela. Queria lançar meu primeiro disco solo, Cena de Cinema, junto com o da Blitz. O Evandro Mesquita disse: “rasga Cena de Cinema na nossa frente, senão não assino”. Acabei expulso da banda. Morava em São Conrado e lembro que no Natal de 1982 eu estava duro, sem um tostão. E todas as casas cantando “você não soube me amar”. Foi uma situação angustiante. Queriam me levar para o psiquiatra, dizendo que eu tinha rejeição ao sucesso. Ninguém esperava que um baterista fosse emplacar, ainda mais com a sombra da Blitz por trás. Na hora da saída, eu disse para o pessoal da banda: “Piada pode repetir duas, no máximo, três vezes. Vocês ainda vão posar no Maracanã com Papai Noel”. E foi o que aconteceu.

O rock errou – O Lulu Santos foi muito importante para a geração do rock nos anos 80. Ele me deu o toque: “temos que nos comunicar com o país, tocar no programa Barros de Alencar, fazer show em Belém…” Mas tinha muito plágio deslavado naquela época. Neguinho pensava: “o Brasil é o c… do mundo, tudo bem se roubar o The Police porque os caras nunca vão vir mesmo para cá”. Eu comecei a ficar enlouquecido, puto com tudo isso. Os discos não refletiam minha qualidade. Vida Bandida, depois de produzido, ficou com a cara do Bon Jovi. Colocaram um coral que eu não queria, solo de guitarra que eu não queria… A estética do rock brasileiro dos anos 80 era obra dos produtores. O maior autor daquilo foi o Liminha, seguido pelo Marcelo Sussekind.

Heavy Metal vs Samba do Morro – Consegui um contrato maravilhoso no Rock’n’Rio de 1991. Escolhi a noite do heavy metal querendo provocar mesmo e por isso pedi 40mts de boca cena para me desviar de qualquer ataque. Mas na hora, houve uma mudança e descaso completos. Colocaram um caixote em cima do palco me deixando apenas 2mts – não teve para onde fugir. Fui reclamar e disseram: “se você não entrar, problema seu. Como você é um cara meio drogado, já vão pensar que não teve condições de fazer o show”. A gente ocupou o lugar da bateria com 40 ritmistas e quando aconteceu aquela chuva de objetos e latas de cerveja, saio e não vem nenhum jornalista brasileiro falar comigo, mas vários jornalistas do exterior e a primeira coisa que o cara do LA Times perguntou foi: “cara, como você se sente com esta rejeição cultural?” Enquanto no Brasil, o questionamento era: “como você tem a coragem de escolher a noite do heavy metal?”

A briga com Gil e Caetano – Sempre achei que as vendagens de discos eram subfaturadas pelas gravadoras. Nos anos 80, Me Chama tocou mais que RPM e Menina Veneno e vendeu só 20 000 cópias? Então, comecei a defender publicamente que os discos deveriam ser numerados para evitar a sonegação. Fui falar sobre isso até no programa do Chacrinha. Recebi na época até ameaça de morte. Em 2002, finalmente, consegui reunir 5 000 assinaturas da classe artística, incluindo Chico, Caetano, Gil…Na semana seguinte, recebo um telefonema da Monica Bergamo, da Folha de S. Paulo. “Você sabia que Caetano e Gil estão dizendo que você é um maluco e que está usando o nome deles?”, me perguntou a jornalista. Eu disse que ela devia estar mal informada. “Não, Lobão, acabei de falar com eles. Vai correndo porque a situação está muito difícil para você”, retrucou a jornalista. Liguei para a casa do Gilberto Gil e falei com a mulher e empresária dele, a Flora Gil. Ela já foi dizendo direto: “canalha, seu escroto, seu moleque! Você está achando que a carreira de Gil foi feita no esgoto? Gil levou uma admoestação agora do presidente da Warner por causa dessa história de numeração!” Eu respondi: “Flora, é o Gilberto Gil que tem que dar esporro no presidente da Warner, e não o contrário. Isso vai acabar na história, vou contar para todo mundo…” Aí ela ficou meio balançada e pediu para eu ligar para a Paula Lavigne, que na época era mulher e empresária do Caetano Veloso. A Paula é mais malandra, chutou no peito, jogou no chão e falou: “Ah, Lobão, para que vamos reclamar! Recebemos aqui muito mais do que a gente merece…” Depois disso, a numeração acabou rolando. Saiu no Diário Oficial e é lei até hoje. Mas tem gente que ainda me pergunta: “e aí babaca, você ficou aí fuçando e não deu em nada…” Eu não acho isso. Conseguimos uma vitória histórica.

A tentativa de suicidio – Apesar da fama de eu ter tentado suicidio não sei quantas vezes, a única que considerei me matar foi no meio da gravação do A vida é doce, em 1999. Eu tinha sido expulso de casa por falta de pagamento de aluguel. Estava tentando vender as músicas novas e os executivos das gravadoras diziam: “rasga isso, é até bom, mas você é o cara do ‘Me Chama’. O Lulu Santos está fazendo acústico. De preferência, pega o repertório de um morto como o Cazuza ou o Renato Russo e chama a Tiazinha para rebolar”. Na época, não havia música independente. Foi aí que entrei em depressão profunda. Certo dia, estava em Ipanema, me cortei todo e tentei me jogar do oitavo andar. Os bombeiros me seguraram e fiquei dois meses sendo acompanhado por enfermeiros. Terminei A vida é doce dessa forma.

Fase acústica – Relutei muito em gravar o acústico Universo Paralelo, de 2007, porque quem fez viu a carreira meio entrar em declínio. Esquisito mesmo. Então, fui para um outro lado, colocando 85% de repertório que nunca tocou na rádio. E ganhou o Grammy latino-americano, concorrendo com a volta de Os Mutantes. No dia seguinte, os jornalistas daqui escrevem que o disco é um fiasco, o pior disco do ano… Virei o Lobão cordeirão, traidor, vendido…

A prisão e o Comando Vermelho – Fui condenado em 1987. Era um réu primário e dancei com apenas um galho de maconha. Tinha direito a responder o processo em liberdade, mas acabei ficando três meses na prisão, vendo rato passar por cima de mim e dormindo sob 50 graus à sombra. Como isso aconteceu e ninguém falou nada! No livro, mostro a corrupção policial como nunca antes vista. Quando saí da cadeia, o mundo não gostava de mim, era um pária. Estava tão desencantado com tudo que virei mascote do Comando Vermelho. Entrei no submundo, participava de emboscadas, tiroteios, vi gente sendo enterrada viva, estava no coração das coisas… No final dos anos 80, participei até de um plano do CV para invadir o Palácio da Guanabara e derrubar o governador Moreira Franco. Só não deu certo porque, na última hora, uma facção rival não chegou a um acordo para levar o golpe adiante. Agora, vou dizer, esses bandidos são maus, não vão se comover com nada, é um recrudescimento humano. Estão virando bicho. Comecei a ficar ressabiado e percebi que não tinha nada a ver com minha cultura. Mas eu era o único da minha classe ali e percebi que, se conseguisse me posicionar, teria uma história para contar.

IN: http://revistaalfa.abril.com.br/cultura-e-sociedade/musica-2/um-passado-que-nao-se-apaga/

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comentários
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