WALTER CARVALHO CONTA OS BASTIDORES DA PRODUÇÃO DO DOCUMENTÁRIO “RAUL – O INÍCIO, O FIM E O MEIO”

Publicado: 5 de março de 2012 em Filmes, Música, Music
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São Paulo, Domingo, 26 de Fevereiro de 2012

FINO
SESSÃO SEIXAS

por André Barcinski

WALTER CARVALHO CONTA OS BASTIDORES DA PRODUÇÃO DO DOCUMENTÁRIO “RAUL – O INÍCIO, O FIM E O MEIO”, QUE ESTREIA NO MÊS QUE VEM EM TODO O BRASIL

Sentado no sofá de sua sala, com um janelão aberto para o Pão de Açúcar e a baía de Guanabara, Walter Carvalho se concentra. De olhos fechados, ele passa um pequeno bastão de metal na borda de um copo pesado, produzindo um silvo constante. “Vamos tentar chamar o Raul”, diz.

Raul, claro, é o Seixas (1945-1989), o roqueiro baiano que Walter, 64, homenageia em “Raul – O Início, o Fim e o Meio”, documentário que estreia em todo o país, em 23 de março, depois de pré-estreias em Salvador, Rio e São Paulo.

Walter é um dos maiores diretores de fotografia do cinema brasileiro. Assinou a fotografia de “Heleno”, cinebiografia do jogador Heleno de Freitas, com Rodrigo Santoro (estreia em 16/3). Além de filmes como “Central do Brasil” (Walter Salles, 1998), “Carandiru” (Hector Babenco, 2003) e “Lavoura Arcaica” (Luiz Fernando Carvalho, 2001). É irmão do documentarista Vladimir Carvalho (“O País de São Saruê”, 1971) e pai de Lula Carvalho, diretor de fotografia de “Raul”.

Esse já é o sexto filme de Walter como diretor. Também tem no currículo “Cazuza – O Tempo Não Para” (em parceria com Sandra Werneck, 2004) e “Budapeste” (2009).

“Raul” é um relato comovente da vida do baiano, um artista tão indefinível quanto sua música. “É a minha visão sobre ele. É o Raul que inventei”, diz Walter. “Porque o de verdade ninguém sabe quem foi. É um mito. E mito não se explica.”

Não é exagero chamar Raul de “mito”. Nenhum artista pop brasileiro tem admiradores tão fanáticos e folclóricos. Que outra personalidade popular merece passeatas, todo ano, com milhares de sósias tomando as ruas e cantando suas músicas? Nem Chacrinha nem Roberto Carlos. Só Raul.

“Pensei muito sobre a razão dessa idolatria”, diz o diretor. “E a única explicação que tenho é sua irreverência. Quando você é garoto, naturalmente tem uma reação contra a família. Quando fica maior, sua reação é contra o ‘establishment’, o governo. E acho que, aí, muita gente se identificou com o Raul.”

Ele pensa um pouco e completa: “Tem outra coisa muito importante: as músicas de Raul são diretas. Parece que ele fala só para você. ‘Ouro de Tolo’, por exemplo: aquilo é uma crônica, uma crônica de Fernando Sabino, de Rubem Braga”.

O próprio Walter se identificou com o maluco beleza. Ele lembra bem do choque que foi ver o cabeludo cantando aquelas letras sarcásticas, em plena era Médici (1969-1974). “Vim da Paraíba para o Rio de Janeiro no fim dos anos 1960. Quando Raul explodiu, em 1972, acompanhei de perto.”

Não deve ser fácil explicar um homem que se dizia uma “metamorfose ambulante”, especialmente porque, em suas entrevistas, parecia estar interpretando um personagem.

“Ele era um ator”, diz o cineasta. “Há uma entrevista que eu fiz questão de deixar no filme: ele está de mau humor, parece que tinha acabado de acordar. A repórter pergunta se o que ele faz é música de protesto. Ele responde: ‘Eu faço música raulseixista’.”

SORTE

Raul Seixas fez, como ninguém, a fusão da música brasileira e do rock’n’roll. Foi a ponte entre Luiz Gonzaga e Elvis, sem nunca soar folclórico. Criou música autenticamente brasileira sem repelir a guitarra elétrica, mas incorporando-a de uma forma original e sofisticada.

Pegue um LP qualquer de Raul, “Gita” (1974), por exemplo: tem rock (“Super-Heróis”), balada caipira (“Medo da Chuva”), repente (“As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor”), folk pastoral (“Água Viva”), jazz-bossa-lounge (“Moleque Maravilhoso”) e bolero (“Sessão das Dez”). E isso é só o lado A do álbum.

Para fazer “Raul – O Início, o Fim e o Meio”, Walter Carvalho gravou mais de 200 horas de entrevistas com 94 pessoas. Falou com as mulheres mais importantes da vida do músico, seus parceiros, amigos e fãs. Coletou dezenas de horas de material de arquivo e centenas de fotos, muitas inéditas, conseguidas em arquivos pessoais. Mas contou também com uma ajudinha especial: “Sorte. Sem ela, esse filme teria sido bem diferente”.

Walter lembra a dificuldade que foi conseguir a entrevista com Paulo Coelho, principal parceiro de Raul. A agenda do escritor estava tão ocupada que o diretor chegou a pensar que lançaria o documentário sem falar com ele. “Seria uma perda irreparável para o filme.”

Até que, certa noite, quando zapeava um canal brasileiro de sua casa em Genebra, na Suíça, Paulo Coelho viu um programa que lembrava os 20 anos da morte de Raul. Nele, Sylvio Passos, presidente do fã-clube do cantor, elogiava Walter Carvalho: “Até que enfim alguém está fazendo um filme sério sobre Raul”, dizia Passos. Paulo Coelho pegou o telefone e pediu que sua assistente marcasse a entrevista.

Durante a conversa, outra intervenção do acaso ajudou a criar um momento sublime: enquanto Paulo Coelho falava, uma mosca -inseto que Raul incorporou no clássico “Mosca na Sopa”- começou a perturbá-lo. “Gozado, em Genebra quase não tem moscas”, diz Paulo. “Deve ser o Raul.” A cena é tão boa que parece armada. “Eu contei que tinha levado a mosca do Brasil, e teve gente que acreditou”, diz o diretor.

A entrevista com Paulo Coelho é a mais importante do filme. O escritor fala de sua colaboração com Raul, da ligação de ambos com o satanista inglês Aleister Crowley e o ocultismo e confessa ter apresentado Raul às drogas. “Eu tomava tudo: ácido, cocaína… Mas não me sinto responsável por Raul ter passado a usar drogas. Ele era maior de idade e sabia muito bem o que estava fazendo.”

Outra qualidade do filme é não esconder os defeitos e problemas de Raul. Quase todos os entrevistados falam do alcoolismo e das drogas que o mataram, aos 44 anos. Sylvio Passos conta que, nos últimos anos de vida, Raul andava com um galão de cinco litros de éter, cheirando constantemente.

Marcelo Nova, responsável por levá-lo de volta aos palcos, depois de três anos sumido, conta que chegou a pagar a feira de Raul. “O Marcelo o ajudou muito. Como ele diz no filme, o Raul morreu de pé, cantando, na frente dos fãs”, diz Walter.

E os fãs do roqueiro vão gostar do filme? “Olha, tive um bom indício numa pré-estreia”, diz o diretor. “Um sujeito, com camiseta do Raul, se aproximou e disse: ‘Rapaz, quero lhe dar os parabéns. Seu filme mexeu com a minha metafísica!’ Nunca recebi um elogio desses.”

IN: Revista Serafina – Folha de São Paulo – Domingo, 26 de Fevereiro de 2012

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