RAUL SEIXAS – “O ROCK ‘N ROLL MORREU EM 59” – Revista Bizz de janeiro de 1986

Publicado: 8 de fevereiro de 2013 em Música, Music
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Raul Seixas em entrevista para Revista Bizz, edição de janeiro de 1986.

Raul Seixas em entrevista para Revista Bizz, edição de janeiro de 1986.

Recém-chegado de uma mini-turnê transamazônica, quando tocou até nos garimpos de Serra Pelada, O grão-vizir do rock brasileiro recebeu Luisa de Oliveira e Alídê Vogt para uma das mais reveladoras entrevistas de sua carreira. Temas como sua prisão no governo Geisel, seus contatos com John Lennon, a importância de se levantar a gola da camisa e de não abrir as pernas para as caixas registradoras. Sem mais delongas, portanto…

BIZZ – Como foram os shows na Amazônia?
Raul – Fantástico, os garimpeiros ficaram fascinados. Eu li todo o manifesto de Aleister Crowley (“Faze o que tu quiseres, será tudo da Lei…”) e eles aplaudiram e sentiram cada palavra. Agora o pessoal que manda mesmo é uma bandidagem danada. Barra pesadíssima.

BIZZ – Você mantém grupo fixo?
Raul – Procuro sempre conservar o pessoal que toca comigo, mas existe também um critério que diferencia músicos de show e músicos de estúdio. Estes eu uso sempre os mesmos: Paulo Cezar Barros, Ivan Mamão, do Azimuth… É gente acostumada a plugar, ir até a mesa de mixagem, fazem o trabalho deles em tranqüilidade e ganham por hora. Músico de show não, vive a aventura de cair na estrada.

BIZZ – O Wagner Tiso já não tocou com você?
Raul – Tocou sim, em 73. Foi uma experiência estranha. Ele, o Fredera do Som Imaginário, só gente da bossa nova… e saía rock. De vez em quando ele dava um acorde errado para eu sair do tom. E eu ainda cantava em inglês! (risos)

BIZZ – Quando você começou a ouvir rock?
Raul – Eu tinha nove anos e morava perto do consulado americano. Andava muito com o pessoal de lá e foram eles que me apresentaram Little Richard (o primeiro que fez minha cabeça), Howlin.. Wolf, Bo Diddley, Chuck Berry…

BIZZ – E quando você começou a tocar?
Raul – Eu já tocava profissionalmente aos dez anos, nos Relâmpagos do Rock… Eu tinha um amplificador que era um rádio de válvula do meu avô, adaptado pelo meu pai. O fio era curto e a gente tinha de ficar preso ao rádio. Isso em 54, 55, ninguém sabia o que era rock. Eu tocava e me atirava no chão, imitando o Little Richard, como eu via nos filmes que os americanos passavam. E sempre notava que as primeiras filas ficavam vazias. É que as mães pensavam que eu era epilético, com meu topete de brilhantina e camisa aberta com gola levantada. Tocamos assim até 66, quando fui gravar Raulzito e Seus Panteras. É um disco tão bonito… eu tinha voz de tenorino.

BIZZ – Como era o rock baiano na época?
Raul – Eram poucos os conjuntos… The Gentlemen, Os Ninos, onde tocava o Pepeu. Até dei uns cascudos nele por roubar meus acordes (risos). Mas o pessoal que vinha do Rio ouvia falar de um grupo baiano que mais entendia de rock..n..roll. Assim, acompanhamos todo mundo da Jovem Guarda (eles viajavam sozinhos): Ed Wilson, Roberto Carlos, Wanderléa, Jerry Adriani, Wanderley Cardoso. Mas gostava era dos Jet Blacks, que assim meio Ventures.

BIZZ – Os direitos autorais valem a pena?
Raul – Valem sim. Eu gosto muito de gravar, mais do que de dar show. Estou mais para cientista – gosto de ficar brincando com os tubinhos de ensaio dentro do estúdio, ver explodir e dar aquela risada, que nem aquele cachorro (ri à la Mutley). Prefiro ver tudo explodir do que me expor.

BIZZ – Você não gosta do palco?
Raul – Eu curto o palco, na hora em que eu entro acaba tudo. Como disse John Lennon, “eu vomito toda vez que vou subir ao palco”. Com 40 anos de idade ainda fico nervoso!

BIZZ – Como era tocar rock nos anos 50?
Raul – A bossa nova surgiu junto com o cha-cha-cha, e o rock..n..roll, junto com uma influência do calipso. Era chique tocar bossa nova e o cha-cha-cha até que era permitido. O rock era outra história: eu tinha que ir até o clube das empregadas para dançar com elas. A empregada lá de casa era minha fã. Chegou uma vez para a minha mãe e disse que tinha dançado comigo. Minha mãe quase morreu… E eu ia dançar também com o pessoal da TR, uma transportadora de lixo. Era a moçada que curtia rock. A bossa nova era com o pessoal do Teatro Vila Velha. Na sociedade não se falava em rock, era coisa de empregada.

BIZZ- Você era marginalizado por isso?
Raul – Se era. Eu freqüentava Iate e o Tênis, que eram os clubes mais metidos a besta de Salvador. Chegava de camisa vermelha, com gola levantada, e ficava encostado num canto tomando cuba-libre enquanto os outros dançavam. Mas não me importava, achava ótimo, importante, tipo “tô revolucionando tudo”.

BIZZ – E o que você acha do rock agora?
Raul – Dizem que se faz rock..n..roll por aí. Pra mim, ele morreu em 59. Rock..n..roll era um comportamento, James Dean, todo momento histórico. Aí veio o caos quando as indústrias não podiam mais parar de fabricar discos. Quando entrou a década de 60, botaram Chubby Checker para cantar “Hava Naguila”, inventaram o hully-gully e o twist, tudo invenção de fábrica. O movimento já tinha passado. Eu chamaria de rock o que existe agora. Do Led Zeppelin, por exemplo, eu gosto – é uma abertura para dizer algumas coisas. O pior é que no Brasil não se está dizendo nada. Acho que voltamos àquela época de Cely e Tony Campello, em que se fazia rock “papai e mamãe”. Mas tem o Kid Vinil querendo fazer rock mais antigo… Ele entende muito de rock.

BIZZ – Você não gosta de ninguém?
Raul – Gosto do Camisa de Vênus. A arte é o espelho social de uma época. As letras acabam inseridas dentro do ponto de vista está do que está acontecendo, tipo Nova República (risos). A TV Globo esses controla esses conjuntinhos todos.

BIZZ- E você?
Raul – Eu continuo fazendo meu trabalho. Você vê o Metrô Linha 743 (N. da R.: último LP de Raul), ele foi completamente podado pelaa Som Livre. Aliás, aproveito esta entrevista para pedir a rescisão do meu contrato. Quando eu gravei o LP, fui para os EUA e gastei oito mil dólares do meu dinheiro para pesquisar filmes em preto e branco. A música do Metrô linha 743 é preta e branca. Ela é de pau e briga, não tem nada de colorida. Aí eles não tocaram, não divulgaram. Ficou por aí…

BIZZ – E você quer continuar dando murro nessa ponta de punhal?
Raul – Quero e quero, vale a pena. Caso contrário, não durmo à noite. Estamos vivendo uma época caótica mesmo, mas este caos é o prenúncio de uma nova era. De dez em dez anos, ou de quinze em quinze, as coisas mudam. Nada de Nova República, nada disso… As coisas mudam no planeta Terra. Como aconteceu nos anos 50 com a geração pós-guerra.

BIZZ – E sua “Sociedade Alternativa”?
Raul – Continua vigorando o tempo todo, não importa de que maneira. São alternativas concretas mesmo, que têm de se solidificar. Mas não mais com palavras, nem com porta-estandarte… Até já fui expulso do país por isso.

BIZZ – Chegaram para você e literalmente mandaram embora?
Raul – “Literalmente” é choque no saco. Fui torturado mesmo no governo Geisel. Me pegaram lá no aterro do Flamengo, me botaram uma carapuça e fiquei uns bons três dias num lugar desconhecido. Aí vieram três pessoas: um bonzinho, outro mais inteligente – que faziam as perguntas – e um mais “agreste”. Depois me colocaram num aeroporto e fui para Greenwich Village (bairro nova-iorquino).

BIZZ – Foi lá que você conheceu John Lennon?
Raul – Eu já me correspondia com ele. Eu e o Paulo Coelho (letrista, parceiro de Raul). Ele estava com um movimento chamado New Utopia. Conversamos sobre tudo isto e sobre as grandes figuras mundo. Ele ficava me perguntando sobre História do Brasil, queria saber quem tinha sido Dom Pedro..

BIZZ – Vocês chegaram a armar alguma coisa?
Raul – Não, porque eu tive de ir para a Georgia. Assim que eu voltei, o pessoal do consulado brasileiro veio em casa, dizer descaradamente que “Gita” estava fazendo maior sucesso, que era para eu voltar, que eu era patrimônio nacional. Mas vi muita coisa por lá. Toquei com Jerry Lee Lewis em Memphis, numa boate… ele me acompanhando no piano e eu cantando “Long Tall Sally” (um dos clássicos de Little Richard). Aí os americanos batiam palmas, pediam outra música enquanto eu me dizia: “Que diabo estou fazendo aqui, um baiano cantando rock em Memphis, Tennessee” Fiquei doido.

BIZZ – Nas gravadoras a sacanagem sobrepuja a honestidade?
Raul – Sim. Eu pulei de uma para outra porque nunca tive controle, nem com quem falar. A Som Livre é a pior de todas…

BIZZ – Então com quem você fala?
Raul – Com o público. Tenho um trabalho quase pronto para um disco novo.

BIZZ – Como vai ser?
Raul – Antes de tudo um disco raul-seixista. Depois, um barroco-rock. Vou utilizar alguns dos instrumentos que vocês viram aí, medievais e renascentistas, mas que se adaptam muito bem à cozinha baixo elétrico/bateria.

BIZZ – O “Rock das Aranhas” continua censurado?
Raul – Continua. Sabe o que eu tenho vontade de fazer? Um compacto com “Mamãe Eu Não Queria Servir o Exército” de um lado e “Rock das Aranhas” do outro. O problema é que um é da Som Livre e outro da CBS (canta “Mamãe Eu Não Queria…”). Sabe que é o maior sucesso quando eu toco isso? Todo mundo canta. E não toca no rádio.

BIZZ – Qual seria a banda dos seus sonhos? Vale quem está vivo e quem já morreu. ..
Raul – Os Beatles, não tem papo, eles foram incríveis mesmo. E a banda que acompanhava Elvis em 54/55: Scotty Moore, Bill Black e DJ. Fontana. Bateria, baixo de pau e guitarra… só isso e os caras faziam a festa, incrível!

BIZZ – Numa entrevista recente, você chamou os Paralamas de Parachoques do Fracasso. Por quê?
Raul – Foi uma brincadeira. Eu gosto deles sim, mas naquela linha que não é rock..n..roll. O que os conjuntos atuais precisam entender é que eles não têm de acompanhar o processo a que estão sendo induzidos inocentemente. Eles não têm uma estrutura sólida, estão aceitando ir com a corrente, totalmente disponíveis. Foi o que aconteceu com os hippies que, com o tempo, passaram até a comprar roupas “hippies” nas lojas do Sistema.

BIZZ – E o punk?
Raul – Também é moda, nada que atinja os alicerces do Sistema. O Sistema vai reverter e capitalizar em cima, se é que isso já não aconteceu…

BIZZ – E o que resiste a tudo isso, em termos de música?
Raul – É a verdade, é o coração. Aqueles escolhidos que não são afetados pela passagem do tempo. João Gilberto.

BIZZ – Quem mais no Brasil?
Raul – Vou dar um exemplo contrário. Vocês se lembram do Gilberto Gil na Tropicália? Agora aparece fazendo propaganda de jeans, com cabelo de rock, um cara que me esculhambava! Fui banido por eles, a turma da Bossa Nova, música pela música, arte pela arte… Depois o cara vira jamaicano e agora é rock?!?! Já o João Gilberto é um cara sincero. Arnaldo Baptista, Serginho Dias… os Mutantes todos, gosto deles.

BIZZ – Você sempre teve fama de irresponsável. É uma injustiça?
Raul – Eu sou teimoso e todos querem que eu seja certinho. Eu não, sou chato mesmo, “mosca na sopa” até hoje. Sou mais anárquico do que irresponsável, mas sei jogar. Se você mover uma peça errada, dança… é difícil.

BIZZ – E os OVNIS?
Raul – Em 73 eu comecei a falar nisso. Aí me encheram tanto que eu parei.

BIZZ – “Ouro de Tolo” aconteceu por causa deles, não?
Raul – A música rolou porque eu vi um disco voador. Foi um toque estranho mesmo, me senti impelido. Eu vomitei aquela música, não foi devagar não. Foi na Barra da Tijuca e durou uns dez minutos. E eu sou cético, agnóstico…

BIZZ – A humanidade evolui ou regride?
Raul – Isso é uma pergunta que você fez. Tem um livro meu de metafísica em que questiono a tese aristotélica, das cinco perguntas básicas: por que, quem, onde, como, qual… Não existem perguntas porque não existem respostas. Não existem respostas porque não existem perguntas. Eu não pergunto mais. As coisas são. Nós somos verbos. Somos e estamos, é a única coisa que a gente sabe. Conjecturar, quem há de? E é bonito assumir essa coisa de somente ser… Está todo mundo perguntando até hoje e ninguém tem resposta.
Revista Bizz de janeiro de 1986

Capa Revista Bizz - Edição de janeiro de 1986

Capa Revista Bizz – Edição de janeiro de 1986

Raul Seixas em 1964 com The Panthers.

Raul Seixas em 1976.

Raul Seixas - Fichas do Rock - Agosto de 1985

Raul Seixas – Fichas do Rock – Agosto de 1985

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